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segunda-feira, 10 de julho de 2017

Bourne Again - a identidade Bourne e o Reino de Deus



Esses dias atrás assisti um filme interessante - um homem é encontrado em meio a uma tempestade, boiando à deriva, e é resgatado por um barco de pesca. Ele não sabe onde está, o que está fazendo ali, e não lembra mais seu nome. Porém estranhamente ele descobre ser capaz de atirar com precisão, entende vários idiomas, e sabe se defender de ameaças com golpes e movimentos precisos e letais. No fim, ele se descobre um super espião (ou agente secreto) cuja memória foi apagada propositalmente. E claro, como todo filme feito para o público masculino, ele é bom com armas, carros, aviões, tem muito dinheiro na Suíça e mulheres lindas sob seu charme de espião.



Há menos tempo outro filme similar porém mais futurista também foi bom de ver - Ghost In the Shell, onde a policial Major não se lembra direito de seu passado, e vive seus dias resolvendo as missões e crimes de cada dia. A única coisa que ela sabe é que foi salva durante um atentado, que mais adiante descobrirá ser uma memória sugerida, falsa, bloqueada no fundo de sua mente.

O que essas histórias tem em comum? Personagens que não sabem quem são, acordam num mundo que já não é mais seu. Personagens cuja identidade foi perdida, ocultada, e perceberam que tudo aquilo que tinham foi enganosamente implantado como realidade.

A identidade deles se foi - seja por desilusão, seja por sabotagem - e com isso, tudo aquilo que valorizavam foi esvaziado, esmaecido, perdeu seu sentido. Todos ficaram desorientados, aflitos, deprimidos, pois para onde vão? quais escolhas farão? qual é o valor que as coisas ao redor tem para eles, e qual o valor que eles mesmos se dão? Todas as suas referências eram falsas, e quando estavam todas juntas, pareciam reais.

Suas histórias de vida, suas experiências aprendidas, seus familiares, heranças culturais, seus gostos pessoais, seus sonhos e seus fracassos - tudo isso lhes dava um eixo ao redor do qual podiam dar valor (negativo ou positivo) às coisas, tomar decisões diárias, e principalmente, interpretar as coisas que aconteciam com ela ou ao redor delas.
A esse eixo no ser humano, a filosofia chama de axis mundi, ou 'o eixo de experiências e valores adquiridos ao redor do qual posicionamos nossas novas experiências, damos significado às coisas e aos eventos, e definimos tudo ao redor, até nós mesmos'.

As estórias de Jason Bourne e de Major são iniciados por algo que acontece também no universo cristão - eles nasceram de novo. Passaram a existir em um novo contexto no qual não sabem nada de si, e descobrem uma nova dinâmica ao redor.

Todos estavam vivendo ansiosos e deslocados. Acordando e dormindo angustiados com algo que incomodava de dentro pra fora minando sua alegria e fé nas coisas.

E eu convido você a pensar comigo em alguns paralelos muito interessantes entre Bourne, Major e o cristão de coração tocado por Jesus.

1) Todos eles acordam de uma realidade anterior, para uma nova, com novos significados, novos aliados, novos inimigos e novas narrativas.

É inegável que as coisas passam a ser diferentes. Você não é mais quem achava que era. Tudo é re-significado. Bourne descobre que é perseguido por espiões e agentes duplos. Pessoas que jamais imaginaria serem suas inimigas. O cristão descobre também que tem novos inimigos - sendo sua própria natureza a mais implacável, tentando derrubá-lo dia e noite - e o diabo, que interage com a sociedade humana para fomentar a natureza caída de cada um, para matar, roubar e destruir tantos quantos ele puder. Aos seus ele provê caminhos de autodestruição prazerosa e irresistível. Aos do time adversário, de Cristo, ele ronda o tempo todo como um leão, esperando alguém tropeçar para acusar, envergonhar e corromper.

O recém-acordado agente secreto descobre também que nem tudo que parece, de fato é. Casas aconchegantes podem ser redutos de terroristas, e padarias ingênuas podem esconder laboratórios de armas potentes. O cristão também descobre que certos lugares não são mais o que pareciam: escondem armadilhas de seus inimigos (sua carne, e o diabo) que antes não eram visíveis. Todo lugar onde o vício é limitado apenas pelo próprio viciado, onde o prazer é um fim em si mesmo sem censura, e todo lugar onde a natureza humana caída é incentivada de maneira empolgada - pode ser agora o último episódio da sua busca por santidade (se parecer cada vez mais com Cristo, seu mestre e salvador).

Antigos aliados agora são descobertos como traidores escondidos. Aquilo que eu achava delicioso podia muito bem ser o veneno diário para minha destruição. Isso vale para Jason Bourne, e vale para o cristão. O consumo da bebida preferida do agente secreto podia ser exatamente o que mantinha sua identidade esquecida. E não é assim também com o consumo de pornografia, de porres de bebida ou de exercícios diários de hipocrisia - um comportamento na igreja aos domingos, outro nos 6 dias restantes? isso não mantém o cristão esquecido e afastado de sua identidade real?

Novas narrativas também entram em cena - se antes o ser humano é apenas mais um macaco evoluído, resultado de um acaso cósmico de química, lutando pra pagar todos os boletos do mês, negando seus instintos em prol de uma certa civilização - então me desculpe, a narrativa do Reino é bem mais bela. Você passa a fazer parte de um plano maior, onde o objetivo não é te fazer feliz o tempo todo, mas te moldar pra que você pareça cada vez mais com Cristo e conheça a natureza de Deus a cada dia mais.

2) Eles ganham uma nova identidade, um novo nome, uma nova distinção

Jason desobre que era Jason. Major descobre se chamar Motoko. E cada um dos cristãos descobre que é único perante Deus, e que Ele tem um nome especial para dar. Em Apocalipse 2:17, é dito que Deus tem uma pedra branca com um novo nome para seus filhos, o qual ninguém mais sabe e ninguém mais tem.

Na Roma antiga, aqueles que seguiam aos ensinamentos de Cristo foram chamados a partir de seu mestre: 'cristãos'.
Antes disso, havia um povo chamado hebreu, que foi escolhido pelo Deus único e criador para ser chamado pelo Seu nome: Israel. A famosa promessa de Deus através do profeta Isaías diz isso: "se esse povo, que se chama pelo meu nome..." e "Pertenço ao Senhor; outro chamará a si mesmo pelo nome de Jacó; ainda outro escreverá em sua mão: "Do Senhor", e tomará para si o nome Israel (Isaías 44:5).

Até então, Jason e Motoko eram definidos e referenciados pelos demais pelos nomes que lhes foram dados por outros. Quem é você na sociedade? você é sua impressão digital, única. Você é seu DNA, seu código genético. No exército, muitos são chamados por uma numeração. Todas características centradas no indivíduo.

O cristão, ao contrário, tem sua identidade baseada fora de si mesmo - em Cristo.
Ele é parte do Corpo de Cristo - a igreja, um corpo no qual Jesus é a cabeça.
Ele descobre que dentro dele passou a viver algo novo e santo - o espírito de Deus, e descobre que seu objetivo é que Cristo cresça cada vez mais de dentro pra fora nele.
Ele descobre que ao invés de tentar descobrir quem ele é, ele tem a missão de uma vida toda para descobrir quem Cristo foi e é.
Se antes seu DNA o identificava, agora o cristão valoriza o DNA do sangue do Cordeiro imolado na Cruz - sua identidade está no Sangue sobre sua cabeça e não sob suas veias.

3) As estruturas mudaram

Vários outros personagens de cinema - entre eles Truman, do Show de Truman (com Jim Carrey), descobrem nesse tipo de trama que, como Bourne e Major, os parentes, pais, irmãos e filhos podem não ser de verdade, sendo muitas vezes atores contratados para mantê-los na rotina sem questionar.

No Reino de Deus, na nova vida em Cristo, o cristão descobre que não há mais parentes, irmãos, pais e filhos. Agora a estrutura mudou - há um Pai, há o irmão mais velho unigênito do Pai (Jesus) e uma multidão de irmãos e irmãs, de mais idade ou menos idade, capazes de abençoar sua vida e de serem abençoados por ela. Todos eles adotados pela Graça do Pai dessa nova família.

4) Ganharam habilidades únicas e especiais



Jason Bourne descobre que é capaz de atirar com precisão nos bandidos, e imobilizar seus adversários com golpes de artes marciais avançadas. Descobre que fala diversas línguas e consegue sair de situações desesperadoras com seus conhecimentos.
Major consegue se camuflar termicamente, ficar invisível, tem super força e não precisa comer ou dormir. Todas essas são habilidades essenciais para que esses personagens sobrevivam no novo mundo em que despertaram.

O cristão também acorda num mundo novo, com novas ameaças, novas dinâmicas, e também descobre com o tempo que tem habilidades especiais. Dons dados pelo próprio Deus, aflorados de dentro pra fora pelo Espírito Santo de Deus que habita cada cristão, e que esses dons o ajudarão a sobreviver e atingir seus novos objetivos nessa nova realidade chamada Reino de Deus. Em 1Cor 12 há uma lista de capacidades excepcionais dadas pelo Espírito aos cristãos. Entre eles, o mais importante de todos: o amor.
De todas as línguas que Jason Bourne poderia aprender, nenhuma é mais importante que aquela cujo aprendizado é vital no Reino e para o Reino, o amor (1Cor 13).

Descobrem que certos 'talentos' que tinham antes são na verdade vergonha (Efésios cap 5 e Gálatas cap 5). E que outros talentos são bons, não nascem conosco, mas são dados por Deus para essa nova realidade (Gálatas 5).

As habilidades antes eram para meu próprio proveito como indivíduo. No Reino, o cristão tem seus dons para melhorar a vida do próximo, ser veículo de Graça, ser 'office boy' de bençãos a todos.

5) Trocaram o seu axis mundi

Aqui vem o tema central e o cerne, o miolo do paralelo entre Jason Bourne e o cristão no reino de Deus.
Perceba que tanto Bourne, como Major, quanto o cristão tocado e comprometido com o Reino, todos os três tiveram o eixo de seu mundo trocado. Seu axis mundi mudou.
Se antigamente para Jason um dia maravilhoso seria um passeio no parque e um bom jantar, agora consciente de sua real identidade, seu dia perfeito é não ser morto por ninguém nem explodir a si mesmo numa missão.

Os valores mudam. As prioridades mudam. Aquilo que era o máximo vira irrelevante do dia pra noite. Aquilo que era tedioso e dispensável agora se torna precioso e defendido com unhas e dentes. Quando o axis mundi muda, todo o resto ao redor dele muda de significado, importância, valor. Como uma árvore de natal, cujos penduricalhos estão ao redor de um tronco.

Saulo se achava 'a última bolacha do pacote'. Alguém admirável. Hebreu de hebreus, quanto a lei fariseu, quanto ao sangue, benjamita. circuncidado ao oitavo dia (Filipenses 3:5,6), instruído aos pés de Gamaliel (Atos 22). Essa era a identidade de Saulo. A vida dos cristãos ao seu redor não valia nada, era um insulto, e desde moço ele os perseguia (veja o apredejamento de Estevão em Atos 7).

Logo após um encontro real com Jesus, ele ganha uma nova identidade: Paulo, seguidor de Cristo, que trocou de axis mundi, para agora considerar tudo aquilo que antes era orgulho, em uma grande perda de tempo (Filipenses 3:7,8).

Um dos grandes dramas do nosso século XXI é que o homem comum tem seu axis mundi em si mesmo, tem seu eixo de mundo formado por seus gostos, experiências, cultura, tendências, sensações e tudo que ele absorveu ou aprendeu do ambiente. E isso é ruim.

Um axis mundi centrado no eu e nas coisas que compõem o meu eu, criam um axis mundi frágil, inconstante e mole - pois você há de convir, quantas vezes ao longo da vida, do ano, da semana ou até mesmo do dia, nós temos mudanças de humor, de sensação, de desejo ou de entendimento? Inúmeras.

Um axis mundi mole e inconstante se traduz em insegurança, pois eu sei que não posso pendurar coisas sólidas e importantes em algo que eu não sinta firmeza. E insegurança me leva à ansiedade, pois o valor que eu dou às coisas, o sentido que eu atribuo às coisas que me acontecem na vida, todas elas estão penduradas em um eixo cuja força depende das minhas convicções, sensações, humor, traumas, frustrações e armadilhas de ego. Ou seja, lá no fundo eu sei que a qualquer instante tudo isso pode vir abaixo. O que eu amo hoje pode não ser suportável amanhã. E mais e mais gente amanhece ou vai dormir com essa sensação cada vez maior de que certas coisas na sua vida (e a vida como um todo) não está fazendo mais sentido, Que nada supre sua vontade. Quando ela acha que encontrou um sentido pras coisas, descobre que estava apenas empolgada. Ou que estava se enganando por medo ou orgulho.

Essa é a ansiedade do mundo líquido, da pós-modernidade de Bauman, do presente século onde 'tudo é relativo', 'tudo depende' e as verdades são passageiras ou então valem apenas para quem quer acreditar nelas. E fica óbvio porque existe essa ansiedade: o eixo da existência das pessoas está nelas mesmas, falhas, inconstantes e no fundo elas descobrem que elas mesmas produziam sentido para aquilo que achavam ser seguro.

O cristão goza de uma situação diferente. Ele ganha um axis mundi fora de si mesmo, ele passa a existir em Cristo, para Cristo. É a partir Dele que todo o resto é significado e valorizado. E como Ele não muda, a certeza das coisas e o sentido de cada coisa da vida passa a não depender mais do meu humor, dos traumas e fracassos que tive, nem dos orgulhos e aspirações que tracei pra mim mesmo. Veja Atos 17:28 - "Nele (Cristo) nos movemos e Nele existimos".e Romanos cap 11:36, "porque Dele, para Ele e por Ele são todas as coisas eternamente".

Num axis mundi em Cristo, a insegurança dá lugar à paz, mas uma paz que não depende da ausência de guerras/conflitos. Uma paz que não está ancorada no meu eu, nos meus achismos e sensações, nem nas minhas previsões furadas. Mas sim uma paz ancorada fora de mim, no meu axis mundi Cristo.

E um novo axis mundi implica em novas escolhas, novas prioridades, preferir certos valores a outros, pois as minhas referências orbitam um novo eixo, Cristo. Eu escolhi aquilo que fortalece o Reino de Deus, e não a mim mesmo ou minhas sedes humanas.

A história da Humanidade é toda descrita pela Teologia Bíblica pela mesma narrativa que atinge o macro (a raça humana) e o micro (o homem indivíduo). A Humanidade cai no Éden e essa natureza caída se perpetua. A humanidade deixa de clamar a Deus e se volta para si mesma e seus prazeres e disputas. Perdem sua identidade como filhos de Deus, e deixam de conhecê-Lo, adorá-Lo e começam a se autoconsumir no pecado, na sede insaciável de qualquer coisa, tão presente no ser humano.
Então Deus na sua Graça toma a iniciativa e se faz presente, visível, e creio eu, deixou na aflição e na ansiedade pós-moderna a trilha de migalhas que leva ao real significado de tudo e à nova (e verdadeira) identidade.

O vazio epistemiológico (ou seja, o vazio de sentido da vida) é um bilhete dourado para sair do mundo de hoje, e acordar em um novo mundo, num axis mundi sólido e pacífico.

Convite Final



A figura é cliché, mas o que não é depois de tantos anos de internet?

Então eu convido você que ainda acha que tudo gira ao seu redor e ao redor das suas preferências, que sua identidade está provavelmente furada.
Você é mais do que se vê. É menos do que se achava. É amado por Deus, é objeto de um plano maior, de um propósito e história únicos num mundo novo chamado Reino de Deus, num novo axis mundi que tem solidez, amor e paz. Essa ansiedade é o coelho branco da Alice, é a pílula vermelha de Matrix, para que você possa sair do sono e acordar com uma nova vida, e com um nome secreto e que Deus pensou só pra você.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Onde vivem os monstros - de Pokemón ao mal da humanidade


Onde vivem os monstros?

No mês em que escrevo isso há uma controvérsia muito grande em relação ao recém-lançado "Pokemón Go", um jogo de celular da Nintendo, do tipo realidade aumentada[1], em que os jogadores devem caçar os monstrinhos pela cidade, para criá-los, treiná-los e depois colocá-los para batalhar contra o monstrinho dos outros jogadores. Sim, eu conheço bem pois assisti quando o desenho chegou ao Brasil nos anos 90.



Há algumas polêmicas dentro do público secular e dentro do público evangélico.

Em relação às questões do público secular, as questões giram em tordo da distração excessiva, mortes e acidentes, invasão de privacidade e benefícios de socialização e exercício físico (desde pessoas que emagreceram vários quilos até quem tenha desmaiado de exaustão).

De maneira sucinta em relação às questões seculares.


  • Há anos pedestres com fone de ouvido e olhando para baixo na tela do celular atrapalham o transito dos carros, quando não são os próprios motoristas a usar a telinha.
  • Acidentes e mortes por selfies vitimaram mais em 2015 do que ataques de tubarão no mundo.
  • A invasão de privacidade colhendo imagens, posição geográfica e afins já era feita sem consentimento há anos por agências de inteligência (do contrário Edward Snowden estaria tomando cerveja em casa nos EUA agora). Hoje em dia muitos de nós fazem isso voluntariamente ao fazer check-in em aplicativos como FourSquare e Facebook.
  • Roubos de celulares já aconteciam, bem como falta de cuidado com ele. São usados com telas cada vez maiores, em bolsos traseiros de calças, em decote de blusa, etc.


Logo, não se trata de um apocalipse de zumbis cuja culpa é do Pokemon Go. Os zumbis já existiam, e esses problemas também. O que o aplicativo fez foi trazer uma boa parte deles para fora dos apartamentos, condomínios e escolas, pra andar um pouco em bandos.

Por isso vemos uma onda tipo "The Walking Dead" pela cidade, shoppings e afins. Mas a turma do twit, zap, insta e snap já zumbizava separadamente. O problema da realidade aumentada é que ela cria uma percepção difusa para uma geração acostumada a um mundo virtual - eletrizante e infinito - agindo agora no mundo real - onde as decisões custam, dóem, machucam e cansam. A mente está no virtual e o corpo no real. A interface ficou mais fina entre os dois mundos.

Veja, não estou fazendo um juízo de valor - o jogo em si não é mau, mas é preciso conscientizar as pessoas para não perderem a noção de si, e lembrarem dos pontos importantes que a vovó te dizia: olhar pra frente e para os lados, não 'dar mole' pra bandido, ficar de olho nos seus pertences, etc.

Mas distrações digitais nunca nos faltaram nos últimos 10 anos. As pessoas já ficavam alienadas em festas em suas redes sociais, almoços de domingo e afins.

Uma perda de tempo de gente idiota? Feche seu Candy Crush por um momento e reflita.

Mas o que me importa mais hoje são as querências do mundo gospel e  a partir delas, entender o que a fé cristã tem a explicar a sensação da visão secular.


O pecado não mora ao lado

Pokemon Go é do diabo? é fonte de pecado? um cristão pode jogar isso?

Num outro post mais antigo, eu já comentei sobre o pecado. Todo costume que em sua vida mata, rouba e destrói algum pedaço dela é um filho entre você e seu maior inimigo, o diabo. Ele mata, rouba e destrói como o pai (o diabo), mas tem a sua carinha, pois nasce e sobrevive através de preferências pessoais, vícios adquiridos, coisas que você adora, com as quais você se delicia. - e muitas vezes usa para fugir de si.

As vertentes mais 'acaloradas' do cristianismo (em geral pentecostais e neopentecostais, normalmente identificados na mídia como 'evangélicos'[2]) tem uma pré-disposição para reações vigorosas, midiáticas e extremistas.

Assim já foi com a televisão nos anos 60-70, com o videogame de console nos 80-90, Viagra, a internet popularizada a partir de 2000, o smartphone em 2007, o Orkut, Facebook, e por aí vai...

A cada nova ferramenta, um novo escândalo acontece dentro de muitas igrejas. Todas identificadas como 'a nova investida de Satanás contra o povo de Deus'.

Ironicamente, hoje temos canais de TV gospel, sites cristãos, aplicativos evangélicos, e páginas de Facebook são disputadas e mantidas por artistas do meio gospel. Não eram esses os instrumentos do diabo, malignos por si só?

Jesus mesmo nos alerta que o mal, a contaminação, não vem do que comemos (ou seja, não vem de fora do homem) mas sim do interior do homem (Mateus 15 e Marcos 7).
Não é a TV que nos corrompe, é o que o nosso coração corrompido extrai e procura ao assistir e trocar de canal.

Tiago, irmão de Jesus, alerta em sua carta (Tg 1) que caímos, pecamos, porque nos deixamos seduzir pela própria concupiscência (corrupção) da nossa carne (natureza). As armadilhas do diabo (e ele não tirou férias, diga-se) não nos laçam na corrida como um novilho num rodeio. É a nossa natureza corrompida que se delicia com a corrupção oferecida pela armadilha, se encanta com o perfume da armadilha, e nós mesmos nos laçamos.

Somos novilhos suicidas, voluntariamente cedendo ao peão demoníaco. Por isso, como diz Tiago, cada um é tentado e seduzido de um jeito, e cai por causa da sua própria fraqueza.

Mas nunca admitiremos isso, pois outra característica humana é o orgulho.

O ser humano tem uma capacidade ímpar de transferir suas responsabilidades. Desde Gênesis, no Éden. A culpa não é de Adão, ele a coloca sobre a mulher, que lhe ofereceu o fruto proibido. A mulher a joga para a serpente, que não tendo mais ninguém após si, tem de assumir a primeira bronca divina. Mas na narrativa, Deus não compra essa idéia e os dois humanos são culpados igualmente.

Personificar o mal é cômodo, dispensa-nos do envolvimento com a situação. Identificar todo o mal em algo fora de nós faz com que sejamos subtraídos da equação dos problemas. Mas somente na nossa consciência auto-enganosa.

É o PT sozinho representando toda a corrupção brasileira. É Lula e Dilma sendo o novo casal edênico[3] por onde o pecado da corrupção entrou no Brasil [4]. Mas certamente não é o troco a mais não devolvido, a pontuação da CNH transferida para um parente, certamente não é a pergunta do vendedor dizendo "quer que marque quanto na nota?".

Esse mecanismo é de distração e ignorância. O fruto de Eva, a TV e o novo aplicativo não são satânicos em si. É o ser humano que tem o "toque de Midas invertido".


Conta a mitologia que o rei da Frígia (hoje Turquia) Midas, tinha o dom dado pelos deuses, de transformar tudo que tocava em ouro. O ser humano faz o oposto - todo tesouro que toca, corrompe e faz veneno para si próprio.

Os satélites que nos unem também nos vigiam. Os veículos propulsores que os colocaram lá são os mesmos que levam mísseis militares.

Esse efeito de Midas invertido vem da rachadura interna que temos em nossa natureza desde o evento do Éden. Somos bipolares desde o ventre materno. Sei que há psicólogos e antropólogos que acreditam no mal como construção social, porém a leitura cristã é de que o mal não vem de fora, e sim que o conjunto de humanos é corrupto. Ou seja, ficamos maus não por causa de um conjunto corrupto de humanos, mas por tal conjunto aflorar e amplificar a corrupção nativa, latente na nossa natureza.

A história da Humanidade comprova isso, no quanto somos capazes de feitos maravilhosos e benéficos, e atos horrendos e temíveis, de extrema maldade, e até mesmo no quanto nossas figuras famosas e ídolos da História são controversos. Fazemos antibiótico penicilina (Sir Alexander Fleming) e massacre de humanos Auchwitz na Polônia.



As Cruzadas na Idade Média, refletem bem essa rachadura. Sob o propósito de livrar Jerusalém das mãos dos muçulmanos, na verdade foi usada de trampolim social para adquirir títulos nobres, remir pecados (a igreja daria indulgência a quem servisse o Papa por X anos) ou pagar dívidas para com o Vaticano...motivações essas bem distantes do original. E no fim das contas, serviu para que os mesmos cavaleiros deixassem um rastro de invasões não-autorizadas, saques, estupros e matanças gratuitas pelo caminho.


Henry Ford inventou a linha de produção padronizada, ao mesmo tempo em que era anti-semita e tinha um bom relacionamento com Hitler (que o admirava).
Einstein foi brilhante mas não foi capaz de nutrir emocionalmente suas esposas e filhos.

Em biografias de figuras históricas, como grandes atores, revolucionários e ativistas, veremos que sua vida não foi 100% bondade e compreensão.

Essa rachadura do coração pecaminoso humano é bem representado no livro das leis cerimoniais dos judeus, destinadas ao pessoal da tribo de Levi - o famoso livro de Levítico no Antigo Testamento - aparece a tratativa para expiar pecados da época (capítulo 16).

Dois animais eram sacrificados absorvendo a culpa da pessoa - um cordeiro, manso e imaculado, e um bode, rebelde e arisco em chifradas (daí a expressão 'bode expiatório') É a representação do nosso interior rachado. Uma parte boa, criada por Deus, residual do que éramos antes de Adão, e a má, corrupta e natural humana.

Ao longo de um dia inteiro, temos momentos de cordeiro e momentos de bode.
Nossas motivações nem sempre são lógicas, mas muitas vezes são egoístas, maldosas, preguiçosas ou interesseiras, mesmo que inconscientemente.

É por isso que ser politicamente correto, lógico e eficiente dá tanto trabalho e requer um tremendo esforço mental e emocional - e normalmente não dura muito. Ser civilizado e cordial é cansativo.

Entendemos como cristãos que essa natureza corrompida só se altera com influência externa, a saber a ação de Deus no coração do homem, dia a dia, pouco a pouco, para que diminua o bode e aumente o cordeiro - até que sejamos como o Cordeiro de Deus (Agnus Dei, em latim), Jesus o Cristo, modelo não rachado para a humanidade.

Essa rachadura nos faz Midas invertidos, nos leva a corromper tudo que tocamos. Senão num primeiro momento, em algum momento mais tarde. Se não abertamente, certamente na intimidade. Se não quando em minoria, certamente de maneira violenta e agressivamente corrupta quando em bando.

Nossa única defesa, enquanto seres humanos, é o Espírito Santo de Deus invadindo e consertando dia a dia, pouco a pouco, nossa natureza de bode, rebelde, imersa e escrava de suas próprias paixões.


Sem intervenção externa, não saímos dessa condição, como diz o antigo profeta Jeremias, repassando o recado divino aos de Jerusalém: "pode um tigre mudar as suas listras ou o etíope mudar a cor de sua pele? da mesma forma vocês são incapazes de parar de pecar. Enganoso é o coração do homem, e desesperadamente corrupto. Quem o conhecerá?" (Jr 13:23, 17:9).

Por isso qualquer estrutura, sistemática ou ideologia que brote ou seja aplicada por humanos tende a se corromper ao longo do tempo. Nem a igreja, que é algo planejado por Deus pra ser uma comunidade de fé e cuidado mútuo, escapou da imperfeição e do toque de Midas dos seus realizadores humanos. Apenas 400 anos depois da crucificação de Jesus, o plano de ser uma família na fé sem divisões nem carências, já havia perseguido judeus, já estava fortemente dividida entre clero e leigos, e fazendo pactos com o império romano. Foi preciso mais 1000 anos [5] até a Reforma Protestante começar um movimento de restauração e purificação. E de séculos em séculos grupos decidem parar e reformar-se novamente, removendo excessos e deturpações de suas práticas.

Há quem use o espaço da pregação nos templos para alfinetar membros da igreja. 
Há quem use o louvor para realizar seu ego e sua reprimida vontade de ser artista.
Há quem use a frequência na igreja de domingo a domingo para esconder sua incapacidade de lidar com a vida pessoal destruída.
Há quem use os dízimos e ofertas financeiras para fins próprios, e reforme e amplie as dependências da igreja para deixar para si um legado.

Por isso, quer seja Pokemon Go, quer seja Facebook, quer seja reunião de estudo bíblico, tudo que cai na mão do homem pode ser usado de maneira desonrosa, corrompida, tendenciosa. Se houver tempo suficiente, será.



E é aí que vivem os monstros. Assim como no livro de Maurice Sendak [6], "Onde vivem os monstros", vamos descobrir que os monstros que devemos caçar estão não fora de nós, nas novidades tecnológicas ou nas ferramentas disponíveis, mas sim dentro de nós - e esses sim, tornam tudo que tocamos em veneno, em droga e em fuga.


Notas e comentários:

[1] - Realidade aumentada: recurso tecnológico em que, através de visores e sensores, coisas do mundo real são percebidas misturadas ao mundo real, seja para fins úteis (um GPS mostrando no vidro do carro setas de onde virar) seja para fins recreativos (como o jogo Pokemon Go) como por exemplo, mostrando no painel do carro ou num óculos 3D onde há bons restaurantes ao redor.

[2] - Aqui a mídia sempre faz confusão - os cristãos não são todos iguais, e há linhas teológicas e de entendimento diferentes. Aquilo que a maioria chama de "evangélicos" são na verdade uma variante, chamada de pentecostalismo e neopentecostalismo. Normalmente são mais fundamentalistas, literalistas, não raro com limitações e restrições quanto a alimentação, vestuário, etc. Muitas possuem programas de TV, rádio, etc e normalmente abrem pequenos pontos de pregação, com o costume de gritar em alta voz e de maneira bem 'incisiva'. Diferem portanto dos chamados "protestantes históricos", como presbiterianos, batistas e metodistas, que normalmente são mais cosmopolitas, contextualizados e de cultos mais sóbrios e clássicos (com hinos, coral, pregação mais temperada, etc). Eu que vos escrevo, sou presbiteriano.

[3]- Edênico - adjetivo que significa "do Éden" ou "que diz respeito ao Éden"

[4] - Não acredito que somente o PT tenha elementos corruptos, nem que a totalidade do PT seja corrupta. Porém creio firmemente que os governos Lula e Dilma tiveram medidas populistas (as que visam aumentar a popularidade) irresponsáveis em termos de orçamento, e que dentro da tradição política brasileira, eles "não souberam brincar" - desvios mudaram da casa de dezenas de milhões para dezenas de BILHÕES - e por isso foram colocados pra fora do "clube".

[5] - Grosso modo, mas durante toda a história da Igreja Cristã houve movimentos isolados de gente querendo consertar excessos, fazendo "pequenas Reformas". Lutero mesmo não foi o pontapé inicial, antes dele outros já se levantavam contra excessos da única igreja institucional disponível - a Católica Romana.

[6] - Nesse livro maravilhoso e profundo, o menino Max é transportado durante seu castigo por malcriações, para um mundo onde vivem criaturas que o empoderam como rei e onde ele pode fazer o que quiser, sem castigo ou limites, e os monstrengos o seguem, imitam. Quando as coisas fogem ao controle, ele percebe que cada uma delas é na verdade um defeito seu personificado. Ele vê que os monstros estavam nele, e eram ele. Um filme memorável, vale a pena assistir e refletir.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Betesda - Tanque de Graça e desgraça



Deus nunca deixou de visitar seu povo, nem os que a sociedade costuma esquecer - propositadamente ou não. E o ser humano há muitas gerações continua o mesmo em sua natureza complicada.

Uma de minhas passagens preferidas na qual tudo isso é mostrado, está nos relatos do apóstolo João, na nossa bíblia atual, no capítulo 5 (na Antiguidade os textos bíblicos não era dividido em capítulos, veja as curiosidades no fim do texto).

Em Jerusalém há um conjunto de tanques e piscinas, construídos sobre fontes de água e nascentes, chamado Betsaida - em algumas traduções, Betesda. O tanque de Betsaida tem perto de 13m de profundidade, e é bem extenso, para servir à população e ao templo, e fica ao sul do templo, próximo a porta de entrada das ovelhas.

Ali acontecia de vez em quando um evento sobrenatural. Um anjo tocava as águas da piscina e as agitava, e o primeiro que ali entrasse seria curado de qualquer enfermidade. 

Ali ao redor dela havia uma população excluída, marginal, de gente paralítica, cega, leprosa, manca, buscando essa fonte de cura. E um homem estava ali tentando há 38 anos sem nem conseguir por si mesmo, nem obter ajuda para isso.

Até que Jesus chega e vai até ele, e o cura com uma ordem expressa.





Esse foi um resumo. Leia completo em João Cap 5: Clique aqui para ler Jo 5 online

Algumas coisas que gostaria de meditar a respeito desse episódio no tanque de Betesda:

1) A Graça de Deus - seu agir pró-ativo em favor dos homens pecadores - se fez e se faz presente também do lado de fora do ambiente religioso. Deus continua sendo Deus e decidindo onde e como vai atuar, e não se deixa prender/depender de rituais religiosos ou locais específicos. Onde quer que Deus deseje derramar da sua Graça, Ele não pede carteirinha nem placa religiosa. Ele faz, ele provê, e não se deixa encaixotar nem domesticar. Ele continua sendo a figura simbólica do Leão da tribo de Judá, que ruge, anda, move, e devora quem tenta mantê-Lo em cativeiros psicológicos e ritualísticos vazios. Os fariseus e sacerdotes (ainda em João 5) se enfurecem e invejosos tramam matar Jesus por ter manifestado cura fora do templo e ainda mais no sábado, que era dia sagrado!

  • O Deus Pai cria fontes sobrenaturais do lado de fora de Jerusalém, encontra Jacó no meio das estradas do deserto. 
  • Jesus trafega de um cemitérios (lugar impuro para judeus) para sinagogas, de praias para templos, sem se lavar nem apresentar passaporte religioso. O mundo é plano pra ele.
  • O Espírito Santo é descrito por Paulo como "que sopra pra onde quer, e não sabemos pra onde vai de de onde vem". Age, toca, restaura corações e ninguém tem que receber prestações de contas.

Deus derramou da sua Graça ao providenciar uma fonte de cura, um ponto de sobrenatural para aquilo que não tinha como ser curado. Ele providenciou o "improvidenciável" e por iniciativa própria. Proveu uma fonte de poder sobrenatural, motivado pelo seu amor e não por méritos dos que dela iam aproveitar. Isso é Graça. Deus tomando a iniciativa em favor do homem que sequer O procura.

Alguém pode, com razão, perguntar: se Deus podia curar diretamente (como Jesus o fez mais tarde), porque criar a fonte ? porque não o fez diretamente?

Longe de tentar adivinhar o que Deus pensa ou quis há quase 20 séculos, olhando pra situação dos personagens envolvidos, podemos refletir em algumas coisas.

Isso nos leva para o segundo ensinamento que aprendemos dessa narrativa:


2) Deus esperava que Betesda fosse um exercício de misericórdia e amor ao próximo.

Desde o Éden, antes da Queda, Deus tem demonstrado um grande interesse em compartilhar, deixar participar, o homem em Seus planos. A primeira coisa após dar vida ao homem, foi confiar a ele a manutenção do jardim e a nomeação de cada animal criado. 
Cristo deveria tornar-se carne no meio da humanidade como Jesus de Nazaré, o Emanuel (que significa Deus Conosco). Porém Deus confia a José e Maria a tarefa de instruí-lo, alimentá-lo, cuidá-lo, para que 30 anos depois Jesus estivesse pronto pra Deus transformar pra sempre seu relacionamento com a humanidade.

Obviamente tais planos não são/serão frustrados, mas como um Pai amoroso com seus filhos, Ele se alegra em deixar seus pequenos pegarem nas ferramentas e buscar material. Ele pode fazer tudo sozinho. Ele mesmo providenciou o material e as ferramentas na oficina. Mas ele se alegra ao ver os filhos interessados na Obra de Suas mãos. É patente na bíblia a vontade de Deus em nos fazer participantes, ver-nos interessados pelo Seu Projeto de restauração da humanidade caída e pecadora, "co-participantes no Reino [de Deus]".

Betesda era essa oportunidade ímpar de exercício da misericórdia e do amor ao meu semelhante. Deus Pai providenciou a cena completa. Proveu uma fonte de poder sobrenatural, num local adoecido. Eu imagino Deus olhando pra cena sorrindo, e dizendo aos doentes: "Agora, amem-se ! ". Porque na misericórdia e no amor havia a possibilidade de um desfecho grandioso e belo.

Ao redor da piscina/fonte abastecida pelo tanque de Betesda, havia gente com várias enfermidades/carências diferentes. Cegos, mancos, leprosos, paralíticos.

Perceba algumas oportunidades de misericórdia e amor:

O cego poderia ser "as pernas" daquele que vê, mas é paralítico. O leproso mais capaz ajuda o mais debilitado. A deficiência de um pode ser suprida pela capacidade do outro. Todos são doentes, todos sofrem. Mas juntos, poderiam ter chegado cada um a seu tempo, na água da piscina quando agitada pelo anjo.

O exercício da cumplicidade, do amor ao próximo, poderia ter feito de Betesda uma obra-prima da Graça, uma fonte de vida. Betesda inclusive significa "casa de misericórdia" em aramaico (Beth Hesdah). Mas acabou sendo o retrato do egoísmo humano, da condição humana de pensar primeiro em si e acabar não recebendo nada. Acabou sendo "lugar de des-graça".

Também nenhum dos felizardos a serem curados voltou para ajudar quem ainda não tinha conseguido.Um sinal claro disso está no fato de que um homem esperou 38 anos sem chegar nem ser ajudado a chegar na água.

E ainda, nenhum dos religiosos e piedosos* de Jerusalém tinha a iniciativa ou a compaixão de ajudar algum deles. Certamente que pra um judeu, muitos dos doentes de Betesda eram "impuros", considerados indignos de se relacionar.

Naquele momento, apesar do cenário ter sido preparado por Deus para ser uma oficina de misericórdia e amor, se tornou uma verdadeira "corrida maluca" (como no desenho animado), onde cada um tenta chegar primeiro e se preciso, tirar proveito da deficiência alheia.


3) e aplicando o que já lemos acima: A igreja visível é a Betesda dos dias de hoje, com as mesmas oportunidades e escolhas.

Veja a semelhança direta - um amontoado de gente doente, com deficiências e capacidades, ao redor de uma fonte sobrenatural provida pela Graça de Deus, buscando sua restauração e cura. Pessoas que por si só jamais conseguirão sair de sua situação, e estão todos à mercê da bondade de Deus.

Os doentes continuam existindo hoje - somos nós. Mas não somente os doentes físicos, como de lepra ou paralisia...mas os de coração adoecido, com cicatrizes/feridas emocionais profundas, com traumas dolorosos, com mágoas intensas...os de mente adoecida que não conseguem se relacionar com nada na vida de maneira saudável...os mancos e paralíticos de espírito, que não tem mais coragem de ir pra vida, de sair de seus medos e frustrações...os que foram mutilados na alma por pessoas maldosas...

A fonte sobrenatural continua lá - na reunião dos cristãos, Jesus promete Ele mesmo estar presente, onde quer "que estejam dois ou três".

E Jesus mesmo nos ensina o que Betesda não fez: olhem para o próximo, sejam como o bom samaritano, escolham fazer o bem ao próximo sem distinção. Amem ao próximo como a vocês mesmos. Não apenas evitem fazer ao outro o que vocês não querem que façam com vocês, mas também sejam pró-ativos e façam a eles o que vocês esperam receber dos outros...Dêem comida ao órfão, ao pobre, visitem os aflitos, pacifiquem situações de briga...sejam hospitaleiros e prontos a abrigar quem precisa, pois assim pessoas abrigaram até anjos em suas casas sem saber..."quando dois de vocês orarem concordando com algo, isso vos será concedido pelo meu Pai".

Paulo cita ainda: "orem uns pelos outros para que sejam curados".

Em resumo, a bíblia deixa claro: "ajudem-se mutuamente, busquem o melhor uns para os outros suprindo suas deficiências, compartilhem, sejam interessados na aflição do outro, e eu farei maravilhas entre vocês, derramarei Graça sobre vocês, e será uma festa de cuidado e amor. Aproximem-se do próximo como se vocês fossem Jesus, e como se o outro pudesse ser também, afinal nunca se sabe quando você será o médico e quando será medicado pelo que Eu capacitei o outro.Às vezes eu agirei diretamente. Mas às vezes será no exercício do amor horizontal (ao próximo) que pode estar guardado a sua cura".

Com esse projeto participativo, Deus pretende ensinar ao homem:

Uma responsabilidade humilde - que me torna preocupado e ativo nos problemas e dificuldades do meu semelhante, mas sem sentimento de posse ou superioridade.

E uma humildade responsável - saber me mostrar fraco, aceitar ser abençoado pelo outro, mas sem bancar o coitado nem ser um sanguessuga, um folgado, explorador.

Mas o que será que a igreja está escolhendo hoje?

Será que está agindo como família, como corpo de deficientes se ajudando em amor nas suas poucas capacidades, pra que todos cheguem à fonte curados/restaurados?

Ou será que está escolhendo ser individualista, buscando cada um por si suas bençãos e planos, mas não enxergando que a sua própria cura pode estar, no plano de Deus, no caminho do auxílio mútuo?

Será que a igreja de hoje está buscando a Betesda sonhada por Deus como cenário onde a benção e a cura são derramados num grupo que se ajuda e se vêem como iguais e doentes, ou será que está cheia de doentes orgulhosos tentando em vão chegarem sozinhos a Graça divina?

Na Grécia e Roma antigas, os devotos de um determinado deus pagão grego/romano (por exemplo, Afrodite ou Zeus) ia ao templo do seu deus preferido levar alguma oferenda, barganhar um favor especial ou uma vitória. Ia sozinho e voltava sozinho. Não importava qual dificuldade ou necessidade o outro cara ao lado, devoto do mesmo deus, estava passando ou pedindo. 

Tristemente, vejo muitas igrejas por aí que estimulam com seus cultos e programações muito mais um relacionamento pagão com Deus - onde cada um busca a Deus sozinho e visando ganhar, obter - do que uma visão de corpo doente que busca unido a restauração.

Betesda vem ensinar-nos que a maior conquista possível pra quem é da Luz, de Cristo, é ver a si mesmo como ferramenta útil completando a carência dos outros.

Pergunte-se se você está completando as pessoas ao redor com que Deus permitiu você aprender ou ser...Existem - até mesmo dentro das igrejas - pessoas que precisam de assistência jurídica urgente, e há advogados clamando a Deus para serem usados por Ele...dentistas, médicos, professores, ex-viciados, todos podendo sanar alguma urgência, deficiência ou facilitar a vida do próximo...aliviar uma carga pesada num século como o nosso em que tudo é caro, e todos tentam enganar e explorar um ao outro o tempo todo...

Tanta gente pedindo pra Deus pra ser usado, e não consegue enxergar que oferecer suas capacidades à comunidade (dentro e fora do templo da igreja) com afinco, ética e - porque não, de graça - à quem precisa, e no momento em que mais precisam, é um refresco divino nos momentos de cabeça-quente, de aflição...quantas pessoas poderiam não fazer loucuras ou cometer graves erros se a Igreja de Jesus na Terra estivesse atenta às necessidades dos aflitos...quanta gente não mata ou rouba pra não morrer de fome, chegando até a vender órgãos ou permitir a prostituição de filhas por não saberem outra forma de viver...

E nem me venham com discursos moralistas de "pegar na enxada" porque não vivemos num país e século justos onde todas as oportunidades são iguais e só fica desnutrido, ignorante e pobre quem quer...sabemos quem gira as engrenagens da máquina-mundo...e onde o mundo jaz...os Filhos de Deus são esperados como ministros de Justiça no meio de tanta injustiça e falta de oportunidade.

Seja sal, seja luz, faça da sua vida uma Betesda sonhada por Deus, um lugar de Graça, de misericórdia...



Curiosidades e Notas:

*Piedoso não é aquele que tem "dó" ou "pena". Piedoso é aquele que é zeloso, cuidadoso com as regras (por exemplo, da religião que segue).

A bíblia nem sempre foi dividida em capítulos e versículos como hoje. Atribui-se a Stephen Langton a atitude de fazer cópias da bíblia (ainda manuscritas) dividindo em capítulos (mas ainda sem versículos) em 1290. Apenas 300 anos mais tarde, no séc 16, é que a divisão em versículos foi adotada.

Da Idade Média até o século 19, acreditava-se que esse tanque era fictício e com isso, que a passagem de João 5 não aconteceu e estava na bíblia apenas para passar uma lição. Porém em 1888 durante os reparos na igreja de Santa Ana, construída sobre o local, foi encontrada por Conrad Schick as ruínas do tanque de Betesda/Betsaida, validando o texto bíblico. Ainda restava a dúvida sobre os 5 pórticos com piscinas ligadas a ele. Entendia-se que era uma simbologia remetendo aos 5 livros da Lei judaica (Torá). Porém em 1956 os pórticos foram encontrados pelas escavações. Portanto, passagem confirmada cientificamente.


Ruínas das piscinas de Betesda

Na maioria das bíblias os versos 3 e 4 possuem partes entre colchetes [ ], indicando que não são todos os manuscritos antigos que possuem esses versos. Porém podemos incluí-los sem preocupação pelo fato de o verso 7 fazer referência à cura (verso 6) e a agitação das águas.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

O filho pródigo e o ser indivíduo de verdade


Já li e ouvi bastante coisa sobre a parábola de Jesus sobre o filho pródigo.

Gostaria de aproveitar a parábola de Jesus de Lucas 15 como pano de fundo para uma analogia mais real e atual. Leia a parabola:


E Jesus disse ainda:
— Um homem tinha dois filhos. Certo dia o mais moço disse ao pai: “Pai, quero que o senhor me dê agora a minha parte da herança.”
— E o pai repartiu os bens entre os dois. Poucos dias depois, o filho mais moço ajuntou tudo o que era seu e partiu para um país que ficava muito longe. Ali viveu uma vida cheia de pecado e desperdiçou tudo o que tinha.
— O rapaz já havia gastado tudo, quando houve uma grande fome naquele país, e ele começou a passar necessidade. Então procurou um dos moradores daquela terra e pediu ajuda. Este o mandou para a sua fazenda a fim de tratar dos porcos. Ali, com fome, ele tinha vontade de comer o que os porcos comiam, mas ninguém lhe dava nada. 
Caindo em si, ele pensou: “Quantos trabalhadores do meu pai têm comida de sobra, e eu estou aqui morrendo de fome! Vou voltar para a casa do meu pai e dizer: ‘Pai, pequei contra Deus e contra o senhor e não mereço mais ser chamado de seu filho. Me aceite como um dos seus trabalhadores.’ ” Então saiu dali e voltou para a casa do pai.

— Quando o rapaz ainda estava longe de casa, o pai o avistou. E, com muita pena do filho, correu, e o abraçou, e beijou. E o filho disse: “Pai, pequei contra Deus e contra o senhor e não mereço mais ser chamado de seu filho!”
— Mas o pai ordenou aos empregados: “Depressa! Tragam a melhor roupa e vistam nele. Ponham um anel no dedo dele e sandálias nos seus pés. Também tragam e matem o bezerro gordo. Vamos começar a festejar porque este meu filho estava morto e viveu de novo; estava perdido e foi achado.”
— E começaram a festa.
— Enquanto isso, o filho mais velho estava no campo. Quando ele voltou e chegou perto da casa, ouviu a música e o barulho da dança. Então chamou um empregado e perguntou: “O que é que está acontecendo?”
— O empregado respondeu: “O seu irmão voltou para casa vivo e com saúde. Por isso o seu pai mandou matar o bezerro gordo.”
— O filho mais velho ficou zangado e não quis entrar. Então o pai veio para fora e insistiu com ele para que entrasse. Mas ele respondeu: “Faz tantos anos que trabalho como um escravo para o senhor e nunca desobedeci a uma ordem sua. Mesmo assim o senhor nunca me deu nem ao menos um cabrito para eu fazer uma festa com os meus amigos. Porém esse seu filho desperdiçou tudo o que era do senhor, gastando dinheiro com prostitutas. E agora ele volta, e o senhor manda matar o bezerro gordo!”

— Então o pai respondeu: “Meu filho, você está sempre comigo, e tudo o que é meu é seu. Mas era preciso fazer esta festa para mostrar a nossa alegria. Pois este seu irmão estava morto e viveu de novo; estava perdido e foi achado.
Lucas 15:18-32


O filho mais novo sonha com prazeres, com aventuras... tem um comportamento anárquico, revoltoso, hedonista (busca seu prazer como uma razão de viver), querendo devorar sua parte nos recursos que o pai lhe deu, na velocidade e gula de vida que lhe pareciam certos. Querendo colocar os seus próprios temperos.

E não é esse o comportamento normal do ser humano? Anárquico, o tempo todo buscando prazer em cima de prazer, e querendo engolir a vida e os recursos que por amor e Graça nosso Pai nos dá todo dia...é a natureza originalmente caída e pecaminosa do homem o que o filho mais novo representa. A vida sem o equilíbrio, sem amor, egoísta, preso no próprio corpo e mente corruptos... Achando que sabemos tudo o que convém e tudo que faz parte de nós...
Então como primeira lição que aprendi desse texto:

O filho pródigo revoltado e indomável representa bem os homens normais longe de Deus

Um evento muda a história. O filho mais novo é tirado de cena. 
Ele se decepciona com suas certezas e com muita coisa em seu coração, coisas, desejos e iras que achava justas....Sua glutonaria de vida e prazeres lhe deu indigestão.

E aí eu aprendo mais uma coisa - nesse momento o filho mais novo começa a lapidação do seu ser, a individuação de si mesmo, descobrindo o quão voláteis são os prazeres, o quão frágeis eram os valores de sua revolução e insistência anarquista.
Começa a tirar de si o supérfluo, o que não é ele mesmo mas está impregnado nele.
Começa a descobrir em si mesmo o essencial, sua essência, começa a se despir de todo lixo de si mesmo e tornar-se um indivíduo, Alguém que pensa, que se conhece e se enxerga.

E ao se enxergar, entende seu erro, sua rebelião, e volta pra casa do pai sabendo de si mesmo que não é merecedor de ser restaurado. Pede ao pai que o permita ser como mais um trabalhador.qualquer. Trabalhar e suar para merecer desfazer a desonra. 

Muitos de nós são assim. Na ânsia de engolir a vida do seu jeito, nos decepcionamos e sentimos que pisamos feio na bola com Deus, Muita gente se propõe a qualquer loucura pra se redimir pra com Deus. Se enchem de proibições, nãos e regras...

Porém o pai o beija,não o trata conforme sua rebeldia mas o ama, o traz para dentro e finaliza o processo de individuação.
Põe um anel no dedo - marca da filiação, de pertencer ao sangue daquele pai.
Lhe pôs as sandálias, marca de quem não era escravo mas sim livre.
Lhe dá vestes novas. Celebra esse gesto da Graça com uma festa e sacrifício com sangue, animal imolado.

E da mesma maneira Ele nos recebe de braços abertos, gente que tinha morrido em seus devaneios e desequilibrios....nos traz pra perto de si e...

  • nos põe uma aliança baseada Nele e nos repatria como filhos diante do Universo;
  • Nos calça os pés pois não somos escravos mais das coisas que nos prendiam e das ilusões de prazeres e controles que achávamos ter....livres em Cristo!
  • Nos dá vestes novas, de alegria e não de pranto, de louvor em Sua presença
  • E tudo isso é selado por um sacrificio Eterno, sacrificio do sangue do Cordeiro imolado desde sempre na Cruz do Calvário.

Sim, agora o filho mais novo, pródigo, retorna como filho que se conhece, se fez gente consciente, que removeu suas ilusões e vive como um filho deve viver. Na sombra do amor de seu pai e gozando de tudo quanto lhe é dado nele .Idem para nós e nosso Pai...

E há quem não tenha tido coragem de se permitir vida, espírito, e apenas se resignou a  ficar morno no seu canto...esse é o filho mais velho, que se indignou e pranteou para seu pai que nunca ganhou nenhum novilho pra se banquetear com seus amigos....no fundo, no fundo, também queria farrear, gozar da vida e dos recursos mas não se manifestou em favor de uma ortodoxia que achava em sua cabeça...

Não se individuou nem lutou para remover de si o que não era legítimo. Apenas se resignou, numa mornidão sem reações. Apático mas um vulcão por dentro. Contido, espremido de medo de sair da linha em prol de um relacionamento de verdade com seu pai, mesmo correndo o risco de perder a compostura. Tanto que reage de maneira hostil ao seu irmão sendo bem recepcionado de maneira injusta mas amorosa e graciosa.

E quantos desses não existem por aí? Gente que não retrocede nem avança, que não se permite ter vida efervescendo em suas veias, não sai pra vida real nem encara os problemas e dilemas de si mesmo...está perto do Pai mas não se relaciona com Ele, se mantém no presépio ao invés de encarar que a vida e ele mesmo não são ideais e precisam se achar e se despir na presença de Deus. 

Acabam ficando invejosos, recalcados, e sequer aprendem com os erros dos filhos pródigos. Não aproveitam o Pai, não gozam da existência que Ele lhes dá:  "Tudo quanto é meu é seu filho" - poderia ele dizer na parábola - "o que faltou foi voce decidir o que quer mesmo".

Por isso o que eu aprendo também desse texto é que tem gente recalcada no mundo, que nem vive nem deixa viver, nem se despe nem aceita a nudez da alma do próximo diante de Deus. Gente que tá perto do Pai mas prefere calar ao invés de tratar. Fantasiar ao invés de encarar a realidade e chamar pelo nome aquilo que tem de feio em si.




Que aprendamos dessa parábola de Jesus a não cairmos em nenhum dos extremos, mas que aprendamos a nos permitir viver, ferver a vida em nós, despir-nos e mostrarmos nossa feiúra e nossas carências ao Pai, deixarmos ilusões de prazer e futilidades da alma pelo caminho sem precisar ir comer com porcos...e a gozar o que Ele nos dá e receber Dele o anel, a sandália e as vestes, e a intimidade do abraço ao redor do pescoço.

Porque o evangelho é convite pra vida, pra realidade como ela é fora de nós e dentro de nós, é convite à nudez da alma como nunca se viu desde Adão. É a vida leve e livre de tudo aquilo que nos prende de maneira invisível - o laço do prazer como meta de vida, da vaidade, do egoismo, dos exageros, das maldades...é chamar cada desejo e impulso pelo nome, levar diante de Deus e com Jesus reconhecer de onde vem, pra onde vai, ao invés de esconder pra si e viver de aparencias escondendo vulcões não tratados no coração.

Pense no vaso nas mãos do oleiro: se as cracas, pedras e impurezas estiverem do lado de fora, é mais fácil de limpar. Se estiverem encrustadas no interior, o oleiro precisará quebrar o vaso para purificá-lo. Aprenda pelo amor e pela gratidão, é mais fácil.

Permita-se viver! permita-se olhar pra si mesmo! permita-se iluminar seu interior com a luz de Cristo e ver o que tá sobrando, corroendo, que não faz parte legitima do ser belo e cheio de amor que reflete Deus - como Adão refletia no inicio!