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sexta-feira, 4 de junho de 2021

Gott ist nicht meine Priorität


 Wenn ich zum Verkäufe gehe (z.B. in REWE oder ähnliche Laden) , normalerweise trage ich ein Liste mit.

Lebensmittel, Tabletten in Apotheke, 5 oder 6 Punkte in Blatt geschrieben. Kartoffeln- oder Zwiebelnbrot, ein Roastbeef zu grillen...Zum erste die Kartoffeln, dann Leberwurst, dann Spül, dann Apfelschorle, und endlich zum Kasse.

Ohne ein Liste, das passt mir nicht. Ich könnte mehr oder wieder Produkten kaufen, die ich schon in meine Haus habe. Oder weitere Produkten nicht wirklich nötig. Weniger Geld sparen.

Aber lass uns wieder meine Liste lesen. Kartoffeln - schon da! Leberwurst...schon drinnen in Korb. Nach 5 oder 6 Produkten des Liste, habe ich keine Grund wieder in Obst/Gemüse Bereich zurückgehen. Es ist schon fertig in Korb. Macht Sinn, oder? Wenn ich Kartoffel-Thema erledigt, dann meine ganze Achtung in Leberwurst ist. Keine Sorge auf Kartoffel.

Lass mich ein ähnlich Situation mit Liste dir erklären.

Wir sagen dass "Gott ist meine Priorität. Alles für mein Herrn. Jesus ist das erste Punkt in die Liste meines Lebens". Das klingt gut, oder? Er ist unser Herr und gehört unser Leben. Deswegen sagen wir immer dass Gott ist Top in unser Leben Liste. Ich verstehe dich, aber tatsächlich ist es falsch.

In meine Leben, Gott ist nicht in erste Stellung.  Zum erste kommt meine Familie (Frau, Kinder, Eltern, usw). Dann kommt in zweite Stellung mein Job/Beruf. In Wirklichkeit Gott ist gar nicht in meine Liste. Er ist weg.

Wenn man ein Liste tragen, um Punkte zu lösen, dann man muss jede Schritt sich kümmern. Nachdem die erste Punkte gelöst hast worden, löst man die nächste Punkt und dann und dann. Niemand kommt zurück um die fertig Punkte zu lösen. 

Gott muss nicht der erste Punkt sein. In unseren generell Gedacht, Gott ist Nr 1 in Leben Liste. Aber man kann nicht "Gott Sache" lösen und dann andere Sache machen. Das ist ein groß Fehler, ein paar Sache als Heilig sondern alles verstanden. 

Gottesdienst. Fußball. Zu beten. Zu kochen mit meine Kinder. Welche von diesen sind gewöhnlich und banal, welche sind Heilig und "Gottes Sache"? Wenn in deine Kopf zwei Gruppe stattfinden, dann Gott ist deine erste Punkt in Liste. Du machst Gottes Sache und alle andere Betreff ist nicht mit Ihm zu tun. Du machst wie du willst.

Paulus sagt zu Korinther:  "Ihr esset nun oder trinket oder was ihr tut, so tut es alles zu Gottes Ehre" und zu Römer: "Denn von ihm kommt alles, / durch ihn steht alles / und zu ihm geht alles. / Ihm gebührt die Ehre für immer und ewig! Amen".

Das meinst Gott nicht unser erste Punkt in Liste sein müssen sondern die selbst Liste! Alle Aufgaben, alle Aktion und alle Betreff müssen durch ihn gehen. Es gibt kein Thema, das durch Gott nicht geht. Fußball spielen, Gottesdienst feiern, Intimität in Ehe, Löb mit Musik, täglich Beruf Aufgaben, man kann alles mit Gott als weiß Blatt listen und auf Ihm schreiben - so alle Bereich unser Lebens kann Heilig sein wenn Gott unser weiß Blatt ist. Heiligartig. Jesu-artig.



So denke du deine Liste nach. Verändern deiner Priorität. Mach Jesu-artig alles. Mach du Gott als deine Blatt so alle Betreff, alle Lebensbereich in Seiner Art sein kann. Und nur wie das, können wir das erleben, wie Paulus zu Römer ratet: 

Und richtet euch nicht nach den Maßstäben dieser Welt, sondern lasst die Art und Weise, wie ihr denkt, von Gott erneuern und euch dadurch umgestalten, sodass ihr prüfen könnt, ob etwas Gottes Wille ist - ob es gut ist, ob es Gott gefallen würde und ob es zum Ziel führt.

Gott segne dir.


terça-feira, 6 de abril de 2021

O Sal e o Antrax

O sal e o Antrax


Voces lembram em 2001, uma semana depois do atentado às Torres Gêmeas, quando houve uma onda de ataques por cartas contaminadas por anthrax? era um pozinho branco e fino, que ao ser inalado, causa uma grave infecção pulmonar (muitas vezes fatal) por uma bactéria forte. Essas cartas foram enviadas ao Congresso americano por terroristas.

Somos feitos de pó, e ao pó tornaremos. Somos feitos de pó, e Jesus pede aos cristãos, que emprestam Seu nome, para serem mais do que pó: Sal da Terra e luz do mundo. Sal é também fino e branco. Ele conserva os alimentos para que não pereçam tao rapidamente (vide a carne seca levada Brasil afora por tropeiros e sertanejos). Sal dá gosto.

Porém de maneira acentuada na pandemia de covid, tem muito crente que também é pó branco e fino, mas não é sal. Tem sido mais um antrax, expondo pessoas à doença ao invés de como o sal, conservar e proteger. Mas isso já era visível há anos.

Já era uma reclamação minha em 2015, quando fiz esse outro post: 

http://dropsdefe.blogspot.com/2015/03/a-igreja-os-doentes-e-o-amor-ao-proximo.html 



Muito antes da máscara e álcool gel

Muito antes da Covid, já havia muitas pessoas que iam para os cultos absolutamente "podres" de doente. Gente com dor de garganta, viroses fortíssimas, conjuntivite, todas doenças contagiosas. Cumprimentavam, beijavam, usavam os bebedouros, mexiam com as crianças e bebês, etc.

Abraçam, falam, compartilham partículas, encostam aqui e ali. Repartem comida ou bebida. Dão carona. Depois no meio da conversa dizem "nossa, essa semana eu passei um sufoco doente" ou pior ainda, "só por Deus que estou aqui hoje, porque estou caindo de doente".

Não muito depois, outras pessoas passavam mal e faltavam nos cultos por estarem com a mesma doença (ou iam assim mesmo, o que é pior). Pessoas cansadas pois passaram dias no pronto-socorro ou postinho de saúde, com o filho sem dormir ardendo em febre, sem respirar com a garganta fechada. Gente esgotada, sem dinheiro pra antibióticos, sem infraestrutura para dar a si mesmo (ou familiares) o devido cuidado. Gente sem carro para ir de madrugada pro PA. Sem convênio. Gente que faltou no trabalho, perdeu viagem, perdeu reuniões, perdeu prova na escola ou na faculdade. 
E quem passou a doença pra frente, não raro era gente que podia trabalhar de casa, gente que podia entrar mais tarde ou tirar uns dias, com todo conforto e com bom convênio.

Talvez você pense que isso não é um problema, já que sua comunidade de fé pode ser mais abastada, com membros mais endinheirados. Mas e as famílias que são afetadas indiretamente, por tabela? a faxineira, o porteiro, o Uber, a cabeleireira? eles têm família, mas não tem a mesma infraestrutura.

Muitas das pessoas que insistem em "ir à igreja" mesmo que chova canivete, mesmo que estejam moribundas, justificam que "é pra Deus". Que "faz X anos que eu nunca faltei nenhum domingo sequer". Justificam que é a maneira deles de demonstrar devoção, dedicação à Deus. É compreensível, mas não deixa de ser perigoso e enganoso. Será que essas pessoas que vão aos cultos a todo custo, 
  • ...continuam sendo uma réplica de Jesus na maneira de tratar os outros e evitar o mal durante a semana (ou mesmo domingo depois do culto)?
  • ...meditando diariamente na Bíblia e buscando mudar a si mesmos ?
  • ...estão atentas às necessidades dos irmãos e irmas da igreja, e atuando nisso?
  • ...ao saberem que alguém está com a mesma doença, telefonam, oferecem ajuda logística e financeira para que ela passe bem pela doença?
Do contrário, toda essa "devoção" está sendo um exercício individual e vazio de piedade (dedicação religiosa), sem continuidade na semana e desconectado dos demais. Esse exercício de piedade descontínua é o que Deus condena através do profeta Amós "estou cansado das suas cerimônias religiosas, suas celebrações me enojam, quero rios de justiça e misericórdia, não sacrifícios".

Todo esse discurso do "vou ao culto, custe o que custar" deixa de ser bom para o Reino de Deus, quando o custo é o bem-estar do outro, ou quando a minha liberdade e satisfação vem primeiro lugar.

Paulo diz aos filipenses, no capítulo 2 : 
não façam nada por interesse pessoal. Não busquem apenas o interesse de vocês mesmos, mas também dos outros. Pois o próprio Jesus, sendo Deus, tendo todo o poder [de fazer o que quisesse], escolheu esvaziar-se e assumir a postura de servo [buscando o interesse de salvar os outros]. Tenham em vocês uma só mente, um mesmo amor, vivendo em harmonia.
Ainda no Novo testamento, vemos em 1 Coríntios 10:23:

Alguns dizem "podemos fazer de tudo" , é verdade, mas nem tudo é bom. Outros dizem "fazemos o que queremos". Sim, mas nem tudo é útil. Ninguém deve buscar os seus próprios interesses e sim o do outro
Como podemos ler o trecho acima e achar que estamos cumprindo-o, se vamos ao culto doentes e expomos ao risco os nossos irmãos e irmãs? o que é mais importante, a sua sensação de "fui ao culto, sou um bom crente" ou o interesse em proteger os demais de ficarem doentes? de que adianta a sua "dedicação" se você vai submeter seus irmãos a no mínimo, gastarem com antibióticos, perderem noites de sono, passarem dias maus?

Depois não adianta dizer "gente, vamos orar por fulano". 

Talvez esteja na hora dos evangélicos começarem a esvaziar a si mesmos, como Jesus, e pensar no interesse do próximo, antes de pensar na sua auto-satisfação.

Outra evidência podemos ver na epístola de Tiago, capítulo 2, quando ele diz
Do que adianta a fé sem obras? pode haver no meio de vocês irmãos que precisam de roupa e não tem o que comer. Se vocês não lhes dão o que precisam para viver, não adianta dizer "cuidem-se, comam bem, se agasalhem!", não adianta dizer "Deus os abençoe". A fé sem obras é morta, e não poderá te salvar se estiver incompleta.

Ou seja, sua fé e sua devoção não podem ser vividos alienados do resto das pessoas. 

Não existe relacionamento com Deus apenas na vertical - você e Ele, sem levar em conta a horizontal - você e o próximo. Esse foi o erro do povo de Deus no Antigo Testamento: focaram em fazer os ritos, as liturgias no templo, mas fora dele exploravam, adulteravam, mentiam, brigavam, corrompiam. Não havia uma continuidade entre templo e vida fora dele.

Tudo isso e nem tinha chegado Dezembro de 2019.

Depois de 5 anos, pouco mudou

Então veio a Covid-19. Que agora é 21 (já que o 19 é por causa do ano 2019), com mais variantes, algumas mais contagiosas, outras mais agressivas.

Uma doença silenciosa, que demora vários dias a aparecer, dando tempo de contaminarmos sem saber, muitas outras pessoas, enquanto achamos que estamos super bem. E para piorar, temos os assintomáticos, que tem o vírus mas não desenvolvem a doença nunca. Apenas a espalham sem saber.

E quando atinge alguém, até o momento não sabemos como o organismo vai reagir. Se vai ser apenas uma "gripe forte" ou se vai deixar sequelas graves. E há várias sequelas graves, desde fibrose no pulmão (falta de ar), diminuição de disposição física, diminuição da concentração e capacidade de raciocínio, arritmia cardíaca, e até insuficiência renal. É uma loteria de possibilidades ruins.

Ou seja, de um lado não sabemos se estamos contaminados espalhando vírus, e do outro não sabemos como cada pessoa vai lidar fisicamente e financeiramente com a doença.

Com tanta incerteza, porque precisamos expor nosso semelhante ao risco, se até quem tem boas condições financeiras está sendo duramente (e fatalmente) afetado?

Porque precisamos ir à praia, ir no restaurante, no clube, fazer churrasco com amigos ou parentes, dar um rolêzinho, gente postando que "sabadou", "dominguinho né" ? - não raro, sem máscara, sem distanciamento, sem nada que ajude a conter o vírus.

Não estamos falando de quem precisa se expor - quem precisa usar trem, metrô, ônibus. Gente que não tem opção de trabalhar de casa, em home office. Gente que está na farmácia, padaria e supermercado para manter a vida urbana possível. Nao vale usar esse falso silogismo, de que "ônibus pode, mas praia não". A não ser que você ceda o seu veículo para algum trabalhador não precisar mais pegar ônibus, enquanto você faz home office, que tal? . Antes de usar esse argumento do "ônibus pode", pense de outro ângulo: essas pessoas infelizmente não tem outra opção a não ser se expor gravemente, sendo que a maioria sequer tem convenio. Mas fazem isso pra poder comprar comida, pagar conta de luz e ser seu porteiro, seu padeiro, sua manicure.

Estou abertamente criticando quem visivelmente sai quando pode ficar.

Porque todo feriado decretado para manter as pessoas em casa, é revertido em atividades que pioram os números de internação 10-15 dias depois?

A coisa é tao absurda que já existem perfis nas redes sociais para divulgar a falta de empatia e indiferença, com festas e aglomerações, por exemplo, o Brasil Fede Covid (do qual alguns prints abaixo foram tirados). Os vídeos originais você pode ver no fim do post aqui.



Nesta semana de páscoa de 2021, cidades do litoral de SP fecharam as entradas para conter contaminação por turistas. Pelo menos 80 casos positivos foram detectados na fila de 4h formada na estrada. Uma senhora de 58 anos fugiu da blitz e foi perseguida. Barreiras físicas foram derrubadas pela população turista. Os locais pedindo para não entrarem pois não havia mais leito nem kit de intubação.

E de acordo com o IBGE, 65% dessas pessoas são cristas (católicos, evangélicos, protestantes). De cada 20 pessoas dessas na praia, 13 em média são cristas.

Em nome de "saúde mental". Você teria saúde mental se soubesse que indiretamente contribuiu pra alguém morrer de covid, ou não poder mais exercer sua profissão por causa das sequelas?


O culto e a liminar do STF

Também recentemente há uma discussão jurídica no STF sobre permitir ou não cultos presenciais. E muitos líderes estão usando a liminar que permite voltar a ter templos abertos para voltar a ter cultos presenciais, sem que isso seja realmente necessário.

Não somos a turma que faz porque é permitido. Somos aqueles que escolhem não fazer, mesmo que a lei permita, porque sabemos que a nossa lei maior (do Reino) nos exige pensar antes no interesse e proteção do outro. Como o Sal.

Aliás, nós brasileiros sabemos bem que nem tudo que a lei permite é eticamente defensável, como privilégios e auxílios recebidos por deputados que já ganham muito bem.

Nenhum lugar é mais seguro do que em casa. Máscaras, higiene, temperatura, tudo isso deve ser visto como último recurso pra quando precisarmos nos expor. Mesmo porque elas não são garantia absoluta, embora reduzam as chances drasticamente.

Somos abençoados com a tecnologia deste século, que permite assistirmos ao vivo ao culto. A interagir ao vivo por vídeo, ou por voz. A orar e receber oração ao vivo, esteja onde estiver. O Espírito Santo não consome banda nem pacote de dados!

É maravilhoso quando a comunhão pode ser física, mas a presença física nunca foi garantia de comunhão. É gostoso abracar, rir junto, chorar junto, ombro com ombro, mas isso nunca foi empecilho para a igreja historicamente. Paulo retrata sua alegria, sua raiva, sua tristeza e sua preocupação com diversas comunidades através de suas cartas.

Outra prova de que comunhão é uma atitude pessoal e não presencial : basta lembrar que em muitas igrejas, antes do covid, muita gente passava por problemas, precisava de ajuda, e mal sabíamos quem eram elas. Membros entravam, membros abandonavam a igreja, e nem notávamos. Comunhão é interesse. É ligar, mandar mensagem, se importar e demonstrar que se importa.

Não se engane. A experiência cristã não se dá na presença física, embora seja enriquecida por ela. Nós nos gabamos que oramos e pedimos oração pra gente que está longe. Cremos que o Espírito Santo atua mais rápido que qualquer internet. Fazemos "relógios de oracao e intercessão" com várias famílias separadas em suas casas. Oramos por missionários isolados do outro lado do mundo.

Paulo tinha um relacionamento intenso com várias igrejas e pupilos como Timóteo, embora na maior parte do tempo Paulo não os visse pessoalmente.

A própria existência de um Novo testamento na Bíblia é a prova de que mesmo a centenas de Km e levando semanas pra enviar e receber notícias, a igreja é capaz de ser igreja comprometida na alegria presencial ou na distância interessada.
Orando. Recolhendo doações. Recomendando soltar escravos. Expondo somente quem precisa, como Epafrodito, que a igreja enviou para ajudar Paulo (Fp 2) quando estava preso, e acabou quase morrendo de doença.

Não é necessária um documento do STF ou governador ou prefeitura, pra que sejamos prudentes e cuidemos uns dos outros. Basta lermos o que nos foi legado por escrito.

Chamados a Obedecer civilmente

Inclusive na Bíblia a igreja é ordenada a respeitar, obedecer as leis e orar pelas autoridades da nação, quer gostemos da lei ou sejamos de esquerda, direita, centro, oposição. Obedecer as leis e decretos.

O único limite são leis que nos exijam fazer algo que é pecado, como leis que permitam pecar contra o próximo o (p.ex. racismo/xenofobia), a negar a nossa fé ou adorar a outro além de Deus (como um líder político, um ditador ou imperador). A escravidão era legalizada, tanto como o apartheid, mas nem por isso a Bíblia assim permite tai coisas.
Para mais sobre isso, veja esse outro post meu: Dois Passaportes, Um visto

Nesse ponto talvez os crentes de Atos tenham sido mais resistentes a adorar a César, do que alguns crentes que encontramos defendendo agressivamente figuras políticas e ideologias A ou B, custe o que custar.

Já vi infelizmente pastores formadores de opinião proclamando que devíamos "rasgar a constituição" já que o Supremo Tribunal Federal voltou a proibir os cultos. Esses pastores deviam é doar (e não rasgar) suas bíblias, pois evidentemente não a leram com zelo.

Pregam abertamente desobediência civil, a anarquia, quando o livro-base da nossa fé diz que devemos orar pelas autoridades, abençoar os que nos perseguem (quando perseguem), e obedecer as leis dos homens até o limite onde fere a lei de Deus.

Pastores que levam a desobedecer a Deus não são exatamente bons pastores.


Mas e a eclesiologia?

Li também que "líderes cristãos que defendem o lockdown evidenciam sua eclesiologia falha" - ou seja, de que não entendem a dinâmica espiritual do culto coletivo, pois "neste momento (de culto presencial), não é apenas cantoria e meditação, é um momento onde Jesus se faz presente".

De fato, nós não cultuamos alguém que está longe no Céu, e sim um Jesus que prometeu se fazer presente no local quando nos reunirmos em nome Dele. Mas não existe apenas uma forma de se reunir em nome Dele, existe? ou então estamos dizendo que Aquele que apareceu ressurreto, que venceu a última limitação da vida física - a morte - se torna incapaz de se fazer presente nos lares quando assistimos e cultuamos online?

A afirmação beira o absurdo quando pensamos que, antes do covid, muitas igrejas faziam seus cultos domingo das 19h às 21h simultaneamente. Mas Jesus estava presente em todas ou alternava entre cada uma?

E quando você não pertence a uma família convertida, e tem que prestar culto escondido no seu quarto, sem cantar alto, orando de madrugada, aflito(a), Jesus não se faz presente nesse pequeno culto no quarto ? "Puxa, sinto muito minha filha, eu podia ajudar mas você não atingiu a cota de 2 ou 3, para poder me invocar".

Não é mais honesto reconhecer que Jesus deixou explícito que:
  • onde estivessem 2 ou 3 reunidos em nome Dele, Ele estaria ali presente, seja no templo, seja na casa, na praia, Ele não citou local.
  • devemos ter intimidade com o Pai no nosso quarto, secretamente, e o Pai secretamente nos recompensará. Neste caso nem 2 ou 3 são, mas apenas 1 com sede de Deus

Uma família que assista o culto online já tem 2 ou 3 pessoas, então já conta.

Todas as outras relações comunitárias de uma igreja (e são importantes), como discipulado, solidariedade, ensino, todas podem ser mantidas de maneiras diferentes e seguras. Se não em 100% mas 95% das igrejas tem como faze-lo!

A igreja precisa ser sensível ao entorno dela. A igreja precisa ser parte da solução e não da complicação do problema.
Estamos dando um péssimo testemunho aos que não são cristãos. Tem gente nao-cristã que está limitando a si mesmo para ajudar a passar pela pandemia. Mas olha no noticiário e vê bandeiras "evangélicas" bradando por cultos presenciais. E esses gentios, não cristãos, se perguntam e nos perguntam: "Vocês não se sensibilizam com isso? não tem compaixão com os outros seres humanos? é isso que vocês pregam?"

Não existe eclesiologia sem que ela leve em conta que a igreja está inserida no meio do Mundo, em gente que vai estar de olho. Atenta ao testemunho, aos valores, e também à hipocrisia.

E a nossa fé não é no culto e no templo, é no Jesus ressurreto. Pode ser no templo. Pode ser presencialmente. Mas não precisa ser, especialmente se isso prejudicar o meu irmão/irmã.

Nos primeiros 3 séculos de cristianismo, sequer tínhamos templos cristãos. Os cristãos eram chamados de "ateus" pelos romanos, pois para eles todo culto tinha um templo do deus adorado. Os romandos tinham vários deuses. Os egípcios e outras etnias tinham outros deuses e somente no templo podiam fazer suas obrigações religiosas. Mas os cristãos não. Nao tinham imagens, estátuas, templos. Eram um escândalo para Roma!

Mas o evangélico atual importou do antigo testamento, tudo aquilo que o próprio Deus deixou para trás no Novo Testamento. Altar, sacrifício, templo, vestes especiais, tocar o shofar (tipo um berrante sertanejo, mas judeu). Quando o dono do nome "cristão", o Cristo Jesus, disse para a mulher no poco de Sicar, "nem aqui no monte Gerizim, nem no monte Moriá em Jerusalém, agora os adoradores verdadeiros vão adorar em espírito e de verdade".

Ah, e tem o argumento "mas o culto é pra Deus, é fazer a Obra, Deus vai proteger, Deus há de guardar".  Se expor ou expor os outros voluntariamente não é um ato de fé, é um determinismo cego de "se eu pegar covid é porque é da vontade de Deus. Se eu transmitir ou morrer é Dele o plano". Nao temos o direito de exigir quando o milagre vai ser feito ou não. Mas temos 100% de obrigação de colher aquilo que plantamos. Essa espiritualização alienada esquece que o Deus que abriu o Mar Vermelho é o mesmo que criou os ciclos naturais com sol, chuva, estacoes, e leis naturais como a gravidade.

Quem age imprudentemente, quem se expõe ao risco (ou expõe os demais) voluntariamente, está sendo como Satanás, pedindo a Jesus para se jogar do pináculo. "Deus há de guardar você com seus anjos, nada vai acontecer de mau". Essa frase não é minha, é do próprio Diabo, distorcendo uma verdade na forma de tentação. não cabia a Jesus decidir quando o livramento vai acontecer. Isso é tentar a Deus, é querer dizer a Ele quando agir com leis naturais e quando agir com milagres. E Jesus era Deus. Você não. Então, menos, ok?

Sim, é importante reforçar que não devemos deixar de confiar em Deus, não devemos nos permitir ter ataques de pânico, medo de existir, medo da morte, não nos permite murmurar dizendo que Deus nos esqueceu. Não ter alegria na vida, não ser grato pelo que tem em casa. Por estar vivo, ainda que por hora limitado. Pois ainda que morramos, viveremos eternamente. O viver é Cristo e o morrer é lucro, se estamos salvos Nele. Devemos ter espaço para o luto, para a tristeza, mas não para a murmuração e o pânico.

Mas nada disso nos dá o direito de expor o próximo, tentar a Deus expondo a nós mesmos, e saindo sem real necessidade (trabalho, compras, médico). Devemos aliar confiança com prudência - se realmente precisarmos sair de casa para trabalhar, comprar mantimentos ou remédios, ou ir ao médico, então que usemos máscaras, álcool gel, que possamos ir sozinhos e não com o carro cheio de gente. Ir e voltar o mais rápido possível, com o mínimo de proximidade com outros. Confiança de que fizemos a nossa parte, nos protegemos e protegemos os demais ao redor, e que se realmente vier alguma doença, será realmente algo que era pra acontecer nos planos de Deus, e não algo que Ele permitiu colher por nosso descaso.

Prudência não é falta de fé, é ter uma fé madura, de que Deus não é uma força que eu controlo, um algo místico que me blinda para eu perseguir meu prazer. É entender que o evangelista Lucas não deixou de ser médico ao se converter, nem Paulo deixou de recomendar a Timóteo que tomasse um pouco de vinho com água para seus problemas de estômago. Oramos, ungimos, e tomamos remédio. Pedimos proteção mas não nos expomos de propósito.


Liberdade acima de Tudo, até Dele

Bandeira Ancap

Tem muito cristão vociferando que estão atacando nossa liberdade, é assim que começa a ditadura. Gritam que liberdade é a única coisa que importa defender, pois sem ela estamos condenados à servidão do Estado. Eu mesmo já estive, antes da pandemia chegar, muito envolvido e adepto ao anarcocapitalismo - uma espécie de anarquia, sem Estado, sem governantes, em que prevalecem as relações de troca entre os indivíduos. Capitalismo sem qualquer restrição que não seja acordado antes por contratos. 

Liberdade acima de tudo, de todos, nada é mais sagrado. Mas hoje já não consigo sustentar a mesma filosofia, após ler a bíblia por completo (aos 35 anos de idade e 20 de igreja, não tinha feito isso, como a maioria também nunca fez).

Basta caminhar um pouco pela Bíblia para ver que a liberdade não é um valor absoluto e inegociável no Reino de Deus. Pelo menos, não é absoluta para os cristãos. E a nossa natureza pecaminosa nos torna predadores de nós mesmos e do próximo.

Se há algo que a lei dos homens e a Bíblia me permitem fazer (sem cometer nem crime, nem pecado), mas ao fazer eu entristeço ou afasto o meu próximo, então eu como cristão mais maduro na fé, devo evitar de fazer isso. Devo limitar a mim mesmo, por amor ao próximo. Devo deixar de gozar minha livre escolha nisso, em prol do próximo.

Isso fica claro em Romanos 14:15. Depois em 1 Coríntios 8:9-13. E em especial, em 1 Coríntios 10:23-33 (resumido):
Podemos fazer de tudo, agir como quisermos. Sim, mas nem tudo é útil, ou bom, ou conveniente. Nao devemos buscar apenas o que queremos, mas sim buscar o interesse do outro. Deixem de fazer tudo o que podem/querem, quando isso atrapalhar ou levar o outro a pecar.

Você podes podem perguntar "porque a minha liberdade deve ser diminuída pela consciência do outro?" - para não afastá-lo de conhecer a Deus, por estar escandalizado ou triste com sua atitude. Vivam de tal maneira que não prejudiquem os judeus, nem os não-judeus, nem a igreja de Deus 

Somado a isso, temos Romanos 12:18 : "no que depender de vocês, busquem viver em paz para com todas as pessoas".

Toda a experiência crista horizontal é baseada no movimento de sair de mim em direção ao próximo. Pensar nele, em buscar cativá-lo, atendê-lo nas suas necessidades, e estabelecer uma ponte de comunhão e intimidade. E evitar a todo custo, mesmo custando minha liberdade de ação, entristece-lo, afasta-lo ou fazer com que cometa pecado.

Porém a politização da pandemia reforçou a mistura bizarra de política e religião que temos visto. Há crentes que escolheram cegamente um lado do espectro político, e compram "o pacote completo", sem avaliar se tudo que vem dentro é coerente com o Reino de Deus.

E antes que você comemore o seu lado político, é evidente que o Reino de Deus não cabe nem na anarquia/revolução, nem na ditadura e opressão. Nem idolatria do Estado nem combate ao Estado.

Porém a politização tem levado sim a cristandade a negar o seu verdadeiro Reino, em prol de alinhamentos da bandeira A ou B, do movimento C ou D. E isso é péssimo para o testemunho do que realmente queremos publicar: o Reino.


Mas e a liberdade religiosa? Estamos sendo caçados politicamente!

Estamos mesmo?


Não, não estamos. Politicamente nunca tivemos tanta influência. Temos bancadas nas 2 casas legislativas em Brasília. Nunca fomos tao numerosos. Perseguidos são aqueles no Irã, na China (onde há vigilância severa em todo cristão) e em países em que é crime de fato ser cristão. Podemos sempre questionar se as tais bancadas realmente representam o interesse dos cristãos - uma limitação da democracia representativa. Eu acho que não. Em suas redes sociais, vemos muitas vezes comportamentos bem aquém do Senhor que dizem seguir. 

Nao somos impedidos de ter cultos transmitidos online. Nem de postar mensagens da nossa fé. Nem de usar camisetas com dizeres da bíblia, nem mesmo de ouvir música evangélica enquanto fazemos faxina.

É claro que a maneira de vermos o mundo, nossos limites e permissões nos colocam em choque com várias "tendências e verdades" da sociedade moderna. Sabemos desde a composição do Novo Testamento há quase 2000 anos que haveria perseguição. Que há de ser assim. Filhos vão delatar pais, e pais delatar os filhos às autoridades. Na época em que cristãos eram capturados simplesmente por serem cristãos, e jogados aos leões em espetáculos para centenas de romanos curtirem, isso não foi nenhum problema para a expansão da igreja. Pelo contrário. A repressão acelerou a adoção da fé cristã a ponto de em 313 dC o imperador ter de permitir, e depois querer controlar a enorme massa de cristãos.

E historicamente a partir daí, quando poder político se misturou com religioso, foi que tivemos mais problemas.
Assista ao excelente filme Quo Vadis, de 1953, com Debora Kerr, retratando essa época. E você não se emocionar, já morreu por dentro!

Mas e a economia?

Para os que já se foram, não há chance de reerguer-se economicamente. Não há chance de negociar boletos. Eles se foram. Além de deixar a família em luto, ainda não conseguirão mais saldar suas dívidas. Buscar doações.

A economia é como transformamos o nosso esforço em sustento. Mas mortos não transformam nem produzem nada além de saudade e dor nos que ficam.

Toda profissão é digna, do mais simples ao mais complexo cargo.

Mas para a igreja, para aqueles que se dizem Do Caminho, do Reino, essencial mesmo é ter empatia, como nos foi pedido por Aquele que podendo ser mais, decidiu ser menos por amor a nós. 
É hora de proteger aqueles que nos cercam, como o Sal da Terra. Nao de espalhar doença como o antrax.





sábado, 2 de janeiro de 2021

Cego, surdos e sentados



Um conjunto de engrenagens, numa máquina, precisa estar bem ajustado, com os dentes bem feitos, lubrificados, do contrário aparecem folgas em alguns pontos, e excesso de pressão em outros. Isso faz com que a máquina comece a ter vibrações, ruídos e todo o conjunto tenha a vida útil reduzida. Todas as engrenagens se estragam mais rápido. E tudo isso por causa de um dente de uma engrenagem que precisava de restauração.

Os dias passam e nós interagimos uns com os outros, como dentes das engrenagens da família, do trabalho, da igreja. Mas prestamos atenção ao que precisa de reparo? Toda grande falha nos metais começa com microtrincas minúsculas, que se acumulam e espalham.

Microtrinca em uma peça de metal que rachou

Mas prestamos atenção a elas? ou esperamos até que estejamos rodeados de ruído, sobrecargas e injustiças?

Nós como seres humanos, falhos e tendenciosos, temos o costume de ignorar os problemas, ameaças e necessidades ao nosso redor, mesmo que sejam urgências da nossa própria vida. Isso tem piorado ao longo das épocas, hoje em dia com mais distrações, mais foco no meu EU e na minha felicidade, do que nunca.

Somos rápidos em identificar os problemas e soluções para a vida dos outros, mas quando nos falam de nossas próprias rachaduras, dizemos que "no meu caso é diferente", isso quando não rebatemos com "você fala isso porque está com inveja/ciúme/raiva". 

Nós demoramos pra agir, preferimos não agir, pois isso significaria ter que mudar, ter que se indispor, interromper algo que está em curso. E muitas vezes, isso significa assumir que estávamos errados - seja por agir, seja por ter deixado de agir. Aquele que sabe fazer o bem mas não age, comete pecado (Tg 4:17).

Procrastinar o que precisa ser feito, especialmente sobre relacionamentos pessoais, é como montar uma bomba-relógio sob nossa própria cama, fazer uma armadilha para si mesmo. É seguir o profeta Zeca Pagodinho, que "deixa a vida te levar", ou que acredita que "o tempo cura tudo".


Quatro ajudantes de Zeca

Vamos dar uma olhada em 4 homens que estavam absolutamente alienados do que se passava em suas próprias casas. Deixaram as "coisas se acertarem por si mesmas".

Em 1 Samuel, nos capítulos de 1 a 4, conhecemos Elcana e Eli. 

Elcana era marido de 2 mulheres, Ana e Penina, sendo que Ana era estéril. Ana sofria por anos nas mãos de Penina, que a humilhava, provocava e oprimia diariamente, a ponto de ela entrar em depressão (1:6,7), sem comer, apenas chorando profundamente. Elcana estava absolutamente alheio a isso, a ponto de querer animá-la com fatura (1:5), e ainda reclamar com Ana: "como voce pode estar tao triste e chorona, eu não sou suficiente pra você?" - provavelmente devolvendo a culpa para Ana, como se ela o ofendesse com "tamanha ingratidão".

Depois vemos Eli, que estava como sacerdote em Siló, e que não conseguia perceber o sofrimento profundo de Ana, quando ela foi com a alma amargurada e aflita orar ao Senhor (1: v.10). Ela nem força tinha para falar, apenas mexia os lábios. E Eli lhe deu uma repreensão dizendo que "ela devia largar essa vida de bebedeira". Confundiu desespero com embriaguez. 

Eli também não conseguia ver que seus filhos Hofni e Finéias, também sacerdotes, estavam abusando do povo através do seu status, a ponto de tomar à força parte das ofertas que traziam, e ter relações sexuais com as mulheres que trabalhavam na Tenda Sagrada.

Eli precisou ser alertado por terceiros (moradores, profetas, etc) para saber dessa baixaria toda, e quando soube, se limitou a dar uma bronca. Deus condenou a passividade alienada de Eli (1Sm 2:29 e 3:13). Eli continuava apenas SENTADO na sua cadeira em frente à Tenda Sagrada (onde ficava a Arca da Alianca). Do capítulo 1 ao 4, Eli aparece sempre SENTADO no problema, alheio ao que acontece, e insensível ao próximo. Sua cegueira não era apenas física, mas de espírito. Tanto é, que as visões e mensagens do Senhor eram muito raras (3:1). O povo e o próprio Eli estavam SURDOS. Eli sequer ouviu a voz do Senhor quando Ele chamou por Samuel à noite (1Sm 3:3-8).

Eli bravo achando que Ana estava bêbada


Precisou Deus levantar um novo profeta e sacerdote - o aguardado filho de Ana, Samuel - para voltar a falar com o povo (1Sm 3:19-21).

E então Eli morreu da maneira que viveu - SENTADO (1Sm 4:12-18), trazendo condenação do Senhor para si, para seus filhos (que morreram) e para seus descendentes (1Sm 2:31-36).

O rei Davi também passou pela mesma alienação passiva (2Sm 13), tendo ignorado suas relações familiares, a ponto de sob seu nariz, na família real, ter havido estupro, vingança, assassinato, conspiração, tudo isso entre seus próprios filhos. Absalão, Tamar, Amnon, todos sofreram anos com a indiferença alienada de Davi, o que culminou na guerra civil entre seus filhos, dividindo o reino em 2: Judá e Israel. Foi o princípio do fim.

Abraão não interveio e deixou o conflito entre Sara e Agar ser resolvido "entre elas", deixando com isso que Agar fosse enxotada grávida para o deserto, e numa vez seguinte, que fosse enviada com Ismael ainda menino para morrer no deserto (Gn 16 e Gn 21). Nas duas vezes, Deus cuidou e trouxe Agar e Ismael de volta.

O primeiro erro destes homens não foi apenas "não saber", mas sim "não buscar saber", não se interessar, apesar de verem sinais, indícios de que algo não ia bem. A ignorância só se torna um pecado quando é voluntária. Todos viviam alienados, incapazes de perceber no outro a aflição, o conflito, o problema. O erro aqui foi o desinteresse, a insensibilidade.

O segundo erro foi de permanecerem alienados. Uma vez que sabiam, tentaram deixar "as coisas se resolverem", e não se envolveram. Em todos os 4 casos acima, o problema continuou acontecendo mesmo depois de os sinais e indícios virem à tona. Procrastinaram o seu envolvimento, ou delegaram a outros que tomassem uma decisão por eles (como Abraão, em Gn 16 e Gn 21).

Eles não sabiam, não buscavam saber e por último - quando não tinha mais como permanecer alienado -  seu terceiro erro foi simplesmente tratar dos efeitos e não da causa-raiz. É como enxugar gelo. Sem tratar a ferida, não adianta por curativo.

Elcana quis sanar a depressão de Ana com mimos. Eli deu uma bronca, e largou a causa. Abraão terceirizou, e "se livrou" do problema do pior jeito. Davi apenas pediu aos seus guardas que não matassem seu filho Absalão na guerra civil.

Não querer saber, procrastinar seu envolvimento e não tratar a causa. Isso tudo forma uma receita para o desastre, para que o pecado "dê crias" e invada como um câncer a vida de todos que nos rodeiam, trazendo o que o pecado faz melhor: roubar, matar e destruir.

Aprendendo com Jesus

Jesus por outro lado, estava atento ao seu redor. Ele percebia que seus discípulos, enquanto andavam na estrada, estavam discutindo entre si, sobre quem era o mais importante entre eles (Mc 9:33). Em Cafarnaum, em casa, Jesus sentou e colocou o assunto a limpo.

Jesus percebeu a mulher com hemorragia, que o tocou no meio da multidão. Pediu para ficarmos atentos aos sinais dos tempos, mas também aos que sofrem (Mt 25). Olhando as multidões, Jesus se compadecia delas. Observando os seguidores que iam pela estrada de Emaús, percebeu neles a tristeza e frustração, e claro, atuou imediatamente.


Nós somos convocados ao longo de toda a Bíblia a termos um papel ativo. Nós somos embaixadores do Reino de Deus, na promoção dos seus valores, e na mordomia (um cuidado ativo, como mordomos, administradores) de tudo que temos em nossas mãos - recursos, influência, tempo, vigor. Especialmente os nossos relacionamentos. Eles podem ser usados para atrair ou para afastar, para dar testemunho ou para entristecer, ofender.

Isso é tão importante que em Mateus 5:20-26, o próprio Jesus recomenda que antes de cumprir as suas rotinas religiosas, é preciso estar reconciliado, em paz, com o próximo. Isso reflete também o que vemos no Antigo Testamento, quando diversas vezes Deus diz "misericórdia quero, e não sacrifícios. Rios de justiça e não mais cantorias em cultos".

Para pensar

Precisamos prestar atenção, se estamos sendo atentos, se estamos fazendo uma boa mordomia dos nossos relacionamentos. 

Quantos "Hofnis e Finéias" têm tocado o terror dentro das igrejas, ferido membros emocionalmente e os afastado espiritualmente pelo mau testemunho, enquanto muitos pastores tem se comportado como Eli, ignorando os sinais ou apenas dando uma chamada de atenção? quantos tem evitado o conflito em prol dos "bons números alcançados" ou pela falta de substitutos? 

Ou quantos de nós não fomos ou ainda somos os Hofnis e Finéias sem perceber?

Quantos líderes de ministério existem sem saber o que acontece dentro dos seus ministérios, com seus membros, ou ignorando os sinais em prol da "paz" e da "boa convivência"? Como o Senhor já mostrou com os profetas Jeremias e Ezequiel, não existe PAZ sem correção de vida, não existe OFERTA válida sem comunhão

Quantos de nós, membros de uma comunidade, "fazemos a egípcia", evitamos quase propositalmente ter intimidade com os irmãos e irmãs da igreja, sem tomar conhecimento dos seus problemas, suas necessidades, sem saber, sem querer saber, sem se interessar, e depois os despedimos mecanicamente após o culto? Veja que nada adianta fazer esse culto (Tg 2:15-17), pois é baseado numa fé morta, desligada da horizontal.

Quantos Elcanas existem em seus lares, tentando abafar os desajustes familiares com bens, abundância, e ainda viram o jogo devolvendo com mais culpa, reclamando que "fazem de tudo, dão de tudo"?

Que eu e você possamos aprender a ser mais como Jesus, e menos como os 4 alienados e desinteressados acima.


quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

A Farra do Bezerro

A FARRA DO BEZERRO

Em algumas comunidades do Brasil, ainda é infelizmente praticada uma espécie de tourada maltratando até a exaustão um boi, que no final acaba por ser sacrificado. Essa prática é crime, e é chamada de Farra do Boi e apenas evidencia a violência do pecado humano.


Bem distante no tempo, mas não no conceito, começou há milhares de anos a farra do bezerro. E ela também maltrata a igreja à exaustão. Vamos revisar Êxodo, capítulo 32.

Após 40 dias aguardando Moisés voltar do alto do monte, onde ele estava recebendo os mandamentos de Deus, o povo hebreu ficou impaciente. Pressionaram então Arão, irmão de Moisés e escolhido como sacerdote por Deus. O povo pediu a Arão que fizesse para eles deuses, ídolos que continuassem o percurso pelo deserto, assim como o Senhor havia feito desde que saíram do Egito. Moisés não voltava, novas ordens não estavam sendo dadas, e eles queriam avançar.

Arão então pede os brincos e adornos de ouro do povo, derrete e forma um bezerro de ouro, dizendo "eis os nossos deuses, que nos tiraram do Egito. Amanhã vamos ter uma festa em honra ao Senhor". Trouxeram animais, fizeram sacrifícios e comeram e beberam aos pés do ídolo de ouro, do bezerro.


Pelo verso 5 de Êxodo 32, é possível entender que Arão achava mesmo que o que ele havia forjado em ouro não era um deus pagão, mas uma estátua que representava o Senhor e assim poderia ser levado adiante, adorado e consultado.

Josué aparentemente tinha ficado no começo da subida do monte, esperando Moisés, e ao encontra-lo pergunta assustado "ouço um barulho de guerra no acampamento do povo".




Moisés já havia sido avisado por Deus sobre o que estava acontecendo, e corrige Josué: não é barulho de guerra, nem festa de vitória de guerra nem lamento de derrota de guerra, mas de festa, de gente cantando.

O que podemos aprender desse texto?

Um deus pra chamar de eu




Mas porque eles queriam que Arão fizesse o tal ídolo? Porque Moisés estava demorando, e eles queriam sair dali mas precisavam se sentir confiantes com alguma divindade indo na frente. Eles queriam um deus que os atendesse no tempo deles. Um deus que eles mesmos pudessem levar adiante nos seus propósitos, e fosse consultado quando quisessem. Eles não adoravam o Senhor pelo que Ele era, mas pelo que Ele estava servindo: para avançar pelo deserto pra terra prometida. Se "esse tal Deus não está mais fazendo isso, a gente troca de divindade, tanto faz que deus é, queremos adorar algo que nos tire do deserto". Eles não queriam esperar as orientações e os planos de Deus, eles queriam um deus que atendesse suas metas (no caso, sair do deserto para Canaã). Eles não queriam uma divindade, no fundo eles queriam seguir a si mesmos.

Seguindo adiante, Arão tenta apaziguar a sede enganosa do povo com uma solução meio-termo: nem a Palavra do Deus verdadeiro, nem um ídolo pagão declarado. Ele tentou criar  algo que saciaria o povo, podendo ser carregado adiante, mas que supostamente representaria Deus o Senhor suficientemente (pelo menos ele achava que era suficiente). Como se Arão dissesse : "estou fazendo uma estátua pra adorarem, mas é de Javé o Senhor, não é idolatria a outros deuses!".

Ele monta a sua versão caseira de "Javé", acreditando que fosse possível dar louvor e sacrifícios a esse bezerro, a essa representação, e isso chegar até o Senhor. Tanto é que ele organiza uma festa a Deus no dia seguinte usando esse bezerro como figura. Matam touros, comem e bebem aos pés dele.
Porém vemos por esse texto de Êx 32, que uma representação do Senhor ainda não passará de uma idolatria, um novo deus, pois o mesmo parecendo prático, o motivo é atender nossos objetivos pessoais.

Arão não era como o povo simplório - que apesar de tudo havia visto as 10 pragas, atravessado o mar vermelho a pé e comido maná. Arão tinha sido escolhido por Deus como sacerdote e recebido ao lado de Moisés muitos sinais e ordens de Deus. Mas entre perder o controle do povão e fazer o que era certo, Arão preferiu acalmar e manter o povo satisfeito.

E o resultado vemos na fala de Josué com Moisés: parece guerra, avivamento, mas é apenas o povo celebrando a si mesmo, dizendo que é para Deus. Parece adoração a Deus (dizem que é), mas o objeto de adoração é feito literalmente com as suas vaidades somadas (os brincos de ouro, as joias, derretidas), disfarçadas de "Senhor", mas feito para atender as vontades e urgências deles, e não eles para com a divindade.

Quantas comunidades com placas de igreja, liturgia de igreja, linguajar de igreja, padecem do mesmo mal?

Quantas assembleias, presbitérios, conselhos, comunidades, denominações, líderes, têm oferecido o "meio-termo de Arão", aquilo que é dito ser Javé, Deus de Israel, ou Jesus o Filho, mas que é representado da maneira que o povo anseia, formatado pra atender o que o povo, pra ser carregado por cada um na direção dos seus próprios planos humanos e metas?

Uma teologia para consumo, um culto que te chama para vitória e conquista, ou para o absoluto relaxamento, respeitando as tuas prioridades e planos? O meio-termo de Arão vende, mantém a comunidade frequentando, arrecadando, justificando a existência da estrutura eclesiástica (corpo pastoral, liderança, templo, rotina). Afinal, como muitos pastores já se justificaram dizendo "se a comunidade fizer metade do que pedimos já vai ser um avanço". É a teologia do conforto, para ambas as partes.

É fácil condenarmos igrejas que vendem "sabonete com cheiro de Jesus", ou "vassoura ungida" e outras bizarrices. Porém por serem heresias tão grotescas, deixamos de perceber as armadilhas sutis, no alto da nossa "iluminação reformada". E como diz o ditado, o diabo está nos detalhes. E o meio-termo de Arão é sutil e venenoso.

Cuidado com o seu ouro



O meio-termo de Arão precisa de bezerros de ouro pra existir. Assim como em Êxodo, são feitos também com o "ouro" de cada um da igreja. Com o "ouro" do talento musical, ouro da oratória, ouro do carisma, ouro do marketing - sim, marketing, com toda aplicação em marcas, slogans, forças-tarefa. Todo esse "ouro" (dons e recursos) é desviado de seu propósito - abençoar e enriquecer espiritualmente a comunidade local - para ser derretido em forma de ministérios, estruturas e formatos que sustentem o "meio-termo de Arão" moderno, e que possam trazer o "Javé meio-termo"  - o deus que poderia abrir o mar, mas quer te dar o carro do ano, e te tranquilizar cheio de amor barato, no meio dos pecados de estimação. O bezerro de ouro é polido todo domingo, toda reunião - a fim de sempre refletir nossa imagem nele, pra que haja identificação e conforto.




Diferentemente do que acontece em Êxodo 35 e 36, quando os israelitas usam seus ouros e habilidades para glorificar a Deus - na construção da Tenda - aqui em Êxodo 32 fica claro que a benção virou maldição através do pecado da idolatria ao bezerro.

A primeira lição a ser aprendida é: cuidado com o seu ouro. Cuidado para que ele não vire um bezerro ou seja somado a um. Cuidado com seu ouro, pois se o seu relacionamento não for com Deus pelo que Ele é, aguardando o que Ele planeja e deseja, seu ouro pode virar um belo e maligno bezerro, pra você carregar na direção dos seus próprios sonhos. E ainda mais diabólico: achando que está fazendo "a Obra", enquanto se doa com o foco errado.

O bezerro e o buraco negro


O bezerro é levado pelos israelitas pra direção que eles queriam. É o povo que leva seu deus, e não o Deus que leva seu povo. O meio-termo de Arão, na forma de bezerro, está aí na igreja de hoje. São tantos cultos que declaram vitória, declaram guerra, proclamam o "ano da colheita", o "ano da virada". São louvores que focam no "conquistarei, vencerei, voarei, dupla honra", ou no "restitui o meu direito", ou ainda "tu me livrarás, multiplicarás". É o povo cantando pra onde o seu bezerro deve os levar. E essa canção não encontra eco com Paulo, que em tudo dava gracas e sabia viver no pouco, no muito, doente ou sadio. Mas encontra eco com os profetas desviados de Jerusalém, do tempo de Jeremias, que diziam "tudo vai bem, vamos vencer os babilônios, não haverá cativeiro e sim vitória". É a romaria do bezerro, cantando pra onde ele tem que ir.

Os bezerros têm que ter muitas formas, conforme as muitas direções de cada ego. São forjados no formato de ministérios, logotipos, programações. São feitas campanhas, levantam recursos, mudam a roupagem do culto. Consomem o ouro (recursos, dons)  que ao invés de ser abençoador, vira pedra de tropeço, vira bezerro para ter o deus meio-termo pra eu inconscientemente me ver refletido e adorá-lo, sob a desculpa de ser para o Senhor Deus.

Há ministérios cujos líderes são temidos e temíveis, que como um buraco negro distorcem toda a igreja para que o orbite e alimente-o, atraindo o resto da igreja enquanto a consome de dentro pra fora. Consome tempo, consome o emocional de membros, recursos da tesouraria, distorce os vínculos sociais e acima de tudo - tira o foco da igreja da caminhada comunitária de santidade, reverência e simplicidade. Esses bezerros de ouro ministeriais são causa de brigas, mágoas, disputas e até mesmo apostasia. Já disse Jesus: ai de quem fizer tropeçar um destes pequeninos na fé. Mas quem tem olhos e vive para o bezerro, não enxerga mais nada ao redor.

Quer saber se é bezerro ou o Senhor? veja os frutos dentro e ao redor da comunidade da igreja. Os ministérios, programações e campanhas produzem frutos de santidade, de comunhão, abençoadores e discípulos? Gera gente mais comprometida com a Palavra, ou gente empolgada e depois machucada? Ou apenas frutos meio-termo, que apenas alimentam o bezerro de ouro?
  • Encham o templo é a versão meio-termo do "Facam discípulos"
  • Sejam ocupados, ao invés de sejam santos
  • Viver a semana toda na igreja, ao invés de ser sal e luz no mundo
  • Criem ministérios, ao invés de busquem o Reino de Deus
  • Ergam obras faraônicas, ao invés de edifiquem uns aos outros e os pobres
  • Sejam fofos e arrumadinhos, ao invés de assumam os pecados uns aos outros
  • Sejam impecáveis aos domingos, ao invés de fazer tudo diariamente para Deus
A idolatria é tímida, vem sempre disfarçada: de piedade, de comprometimento, de paixão pela Obra, mas assim como um ramo de laranjeira produz laranja, mesmo seja enxertada num limoeiro, a idolatria também nunca deixa de produzir seus frutos acima citados. 

Idolatria não é apenas relacionado com a vaidade, com orgulho, mas também com aquilo que é usado e valorizado de maneira desproporcional, seja para mais ou para menos. O abuso, ou separado em suas partes: AB-USO, o uso para além do esperado, planejado.

Pode ser idolatria da liturgia, do formato de culto, seja pelo novo ou pelo antigo. Idolatria do crescimento numérico, ou de arrecadação. Idolatria de líderes e liderados, do carisma pessoal. 


Até mesmo aquilo que um dia foi benção pode ser convertido em ídolo - veja o caso da Serpente de Bronze erguida no deserto (Nm 21:8). Séculos depois, algo que apontava indiretamente pra Jesus crucificado na Gólgota, estava sendo usado como deus e recebendo adoração como Neustã (2Re 18:4), sido destruído pelo rei Ezequias.



Nem todo barulho é música, nem todo movimento é vida

Pra quem observa de longe como Josué, ver toda essa movimentação na igreja local pode pensar que é guerra, clamor, avivamento! Mas é como diz Moisés, é só celebração para si mesmos, disfarçados de piedade, de devoção. Quando olhamos o alvo dessa devoção, não encontramos o Senhor, mas uma imitação feita de vaidades fundidas e que reflete a eles mesmos. Parece o barulho de quem está no meio do Bom Combate, mas é apenas a farra do bezerro, é a festa do meio-termo.

Portanto, fique atento ao seu ouro - aos ministérios, à vida da igreja em que você congrega, se ela vive para Cristo ou se alimenta o bezerro sem se dar conta. Veja os frutos, veja os efeitos nos irmãos e irmãs, nos líderes, e em você perante a Palavra.